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Mandela: A glória da unanimidade

Nelson Mandela pertence à rara categoria daqueles que conheceram a glória da unanimidade em vida. A distinção provêm do estoicismo com que suportou 27 anos de prisão, por lutar pelo desmantelamento do regime do apartheid e da capacidade de perdoar os seus carcereiros, permitindo uma transição política pacífica na África do Sul.

Celso Filipe cfilipe@negocios.pt 05 de Dezembro de 2013 às 22:16
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À luz da história recente, Mandela está envolto numa aura de quase santidade – apontado como exemplo de generosidade e humildade. É esta interpretação da sua vida que o próprio se empenha em dessacralizar em “Arquivo Íntimo”, um livro editado pela Objectiva em 2010.

 

“Uma questão que me preocupava seriamente na prisão era a falsa imagem que eu sem qualquer intenção projectava para o mundo exterior; a de ser encarado como um santo. Nunca fui um santo, nem mesmo na acepção terrena de um santo como um pecador que não cessa de se esforçar”, escreve Rolihlahla Mandela, a quem uma professora primária da aldeia de Qunu deu o nome de Nelson, tinha ele sete anos.

 

“Arquivo Íntimo” resulta de excertos de uma autobiografia que se mantém inédita, cartas e conversas com Richard Stengel, que escreveu a “Longa Caminhada para a Liberdade”, e Ahmad Kathrada, que tal como Mandela foi condenado a prisão perpétua a 12 de Junho de 1946. Esta colagem de registos evidencia um facto – a serenidade avassaladora com que Mandela constrói e, em simultâneo, desconstrói a sua história de vida.

 

É assim que surge a cela. “Lugar ideal para nós conhecermos a nós próprios, para aprofundarmos de forma realista e regular os processos da nossa mente e dos nossos sentimentos”, constata Mandela numa carta a Winnie, sua segunda mulher. As relações com esta atravessam uma grande parte do livro, mas é com Graça Machel, com quem se casou aos 80 anos, que se descobre um Mandela mais volúvel à paixão. A começar pelo bloco personalizado onde anota a morada da ex-mulher de Samora Machel, com a surpreendente imagem de Garfield. Uma ternura, quase infantil, que se prolonga em desabafos como este: “sinto um conforto e uma satisfação incríveis em saber que existem alguém, algures no universo, com quem se pode contar, especialmente em assuntos em relação aos quais os meus camaradas políticos não me podem ajudar”.

 

A desconstrução da lenda também é consumada através da disseminação do mérito. O combate político na África do Sul, onde Mandela foi transformado em bandeira pela comunidade internacional, teve outros protagonistas, tão ou mais relevantes que o próprio. “A morte de OR [Oliver Tambo] foi com uma queda de um carvalho gigante que estava ali desde sempre dominando e embelezando a paisagem, e atraindo tudo à sua volta, tanto pessoas como animais. Foi o fim de uma era de um líder... com fortes convicções religiosas, um matemático e um músico consumado, sem rival na dedicação ao seu povo” anota Mandela, ao ter conhecimento da morte de Tambo, a 24 de Abril de 1993.

 

Verne Harris, gestor do projecto que origem a “Arquivo Íntimo” e do Centro de Memória e Diálogo Nelson Mandela explica que “a forma do livro é inspirada directamente nas ‘Meditações de Marco Aurélio’, um livro de pensamentos, reflexões aforismos escrito no século II d.C. (...) Marco Aurélio conhecia as vantagens da meditação, do registo e da disciplina diária. Escrevia em plena acção. E o seu livro está repleto de sabedoria”.

 

Então, o que se pode esperar ao ler “Arquivo Íntimo”? Conhecer um Mandela despojado, comum e mundano, sem complexos de assumir a sua estupefacção perante a realidade, mas também um Mandela metódico e empenhado na causa não-racial. “Este livro ajuda-nos a recriar os diferentes passos – bem como os desvios – que empreendeu ao longo da sua jornada. (...) Tomo plena consciência de que mesmo que se tenha tornado uma lenda, conhecer o homem – Nelson Mandela – é respeitá-lo ainda mais”, escreve o presidente norte-americano, Barack Obama, que assina o prefácio de “Arquivo Íntimo”.

 

Um desvio, importante, foi a revisão da política de nacionalizações defendida pelo ANC (Congresso Nacional Africano), feita com muitas reticências. “O momento decisivo... foi quando eu participei no Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça, onde tive oportunidade de... conhecer os principais líderes industriais de todo o mundo... que fizeram questão... de expressar as suas opiniões de forma muito clara sobre a questão das nacionalizações, e eu compreendi, como nunca tinha compreendido antes, que se queríamos atrair investimento tínhamos de rever as nacionalizações sem as suprimir totalmente da nossa política... tínhamos de afastar o receio dos empresários de que... os seus activos iriam ser nacionalizados”, recorda Mandela.

 

O antigo líder do ANC também acaba por fazer concessões em relação à luta armada, uma via pela qual inicialmente se inclinou, tendo inclusive recebido treino militar. Numa conversa com Stengel, onde lembra que Cristo também utilizou a força, Mandela argumenta: “Bem, toda a gente – quando a única forma de dar um passo em frente, de resolver os problemas, consiste no recurso à força: quando os métodos pacíficos se revelam inadequados. Essa é uma lição da história, ao longo dos séculos e... em qualquer parte do mundo.” Depois, acaba por dar maleabilidade às suas convicções, tendo iniciado em 1985 negociações preparatórias com o Governo sul-africano de então, que permitissem o início de negociações com o ANC. A utilização da força é então vista como “uma medida excepcional, cujo objectivo primordial deverá ser o de criar o ambiente necessário para soluções pacíficas”.

 

“Arquivos Íntimos” mostra que Nelson Mandela recusa a perfeição – mesmo que outros lhe queiram atribuir este predicado.   

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