Seguro não se demite mas abre possibilidade de uma liderança a dois no PS
A Comissão Nacional deste sábado vai deixar tudo ainda mais incerto. O secretário-geral do PS não se demite e rejeita discutir a convocação de um congresso proposta por António Costa. Seguro responde com primárias, o que abre a possibilidade de uma liderança a dois.
A Comissão Nacional do Partido Socialista que decorre este sábado no Vimeiro, Torres Vedras, deverá mesmo deixar tudo na mesma. Neste momento há apenas duas garantias. Uma é que o secretário-geral do PS, António José Seguro, não se demite. A outra é que tudo ficou mais ainda mais confuso.
Como se previa o secretário-geral do PS, António José Seguro, não se demitiu e rejeitou a convocação de um Congresso extraordinário. "Não me demito" e "agora habituem-se", atirou Seguro.
António Costa, actual presidente da Câmara de Lisboa, como também era de esperar, desta feita não baqueou e manteve a vontade de desafiar a liderança de Seguro em eleições directas.
O líder do PS, juntamente com outros conselheiros, votaram contra a proposta apresentada por Costa, já no final da manhã, que previa introduzir na discussão a proposta de convocação de um congresso extraordinário. Tal proposição não foi sequer discutida dado que a alteração à ordem dos trabalhos exige a unanimidade dos conselheiros.
O inesperado viria de seguida. Indisponível para discutir a convocação de directas e de um congresso, o actual líder socialista avançou com um processo de discussão interna tendo em vista a realização de primárias para escolher o candidato do PS a primeiro-ministro. A concretizar-se, caso Seguro não se demita e Costa vença as eventuais eleições primárias, abre-se a possibilidade de uma liderança a dois
no PS: Seguro enquanto secretário-geral e Costa o candidato às legislativas, no que seria uma espécie de reedição da pensada, mas não concretizada, liderança bicéfala ponderada no início dos anos 90 quando Jorge Sampaio era líder e António Guterres lutava pela ascensão a líder socialista.
Duas perspectivas da Comissão Nacional
O secretário-geral socialista não se demitiu, rejeitou discutir a convocação de directas e de um congresso extraordinário. Todavia deu início a um processo de discussão que desencadeie a realização de primárias abertas a militantes e simpatizantes socialistas, cujo voto será para escolher o candidato do partido ao cargo de primeiro-ministro nas legislativas do próximo ano.
Seguro disse ainda pretender avançar com uma reforma à lei eleitoral no sentido de reduzir o número de deputados da Assembleia da República de 230 para 180 deputados. O ainda líder socialista defende também que os eleitores possam votar em listas abertas, escolhendo o seu candidato, ou, então, que sejam criados círculos eleitoras de um só deputado.
O proponente a líder do partido, António Costa, não coloca de parte a possibilidade de primárias. "No passado sempre o defendi", disse aos jornalistas à saída para a pausa de almoço. Mas Costa não se mostra um apoiante de uma hipotética liderança bicéfala do partido.
"Seria sempre pouco claro haver um candidato a primeiro-ministro e um outro secretário-geral do PS. Não é essa a tradição", defendeu para voltar à carga com a necessidade de realização de um congresso que possa clarificar a actual crise interna porque "a escolha de secretário-geral é, necessariamente, uma escolha que é feita pelo congresso".
De acordo com as palavras de António Costa e dos seus apoiantes, existe abertura para a realização de primárias desde que tal não inviabilize a realização de um Congresso extraordinário.
Uma liderança a dois também parece colocada de parte. Entretanto o autarca lisboeta já terá reunido as 75 assinaturas necessárias à convocação de uma Comissão Nacional extraordinária, a realizar
dentro de duas semanas, na qual constará na ordem dos trabalhos a discussão sobre a convocação de eleições directas e consequente Congresso extraordinário.
"Agora habituem-se"
Esta expressão utilizada por António José Seguro tornou-se num dos principais motivos de discussão entre jornalistas e militantes socialistas. O que quererá Seguro dizer com o "agora habituem-se"?
Parece claro que Seguro não se irá demitir de secretário-geral do partido, algo que designou de "irresponsabilidade" perante a actual situação de dificuldade que o país vive. Mas a pressão interna e a "vitória de Pirro", nas palavras do fundador socialista Mário Soares, terão pressionado Seguro a admitir a possibilidade de bifurcar a liderança do partido.
"Tenho um mandato como secretário-geral do PS para ser candidato a primeiro-ministro e abdiquei dessa minha atribuição para abrir à escolha dos portugueses", disse de forma algo equívoca aos jornalistas antes da hora de almoço no Vimeiro.
Esta declaração pode bem significar que o "habituem-se" de Seguro pretende avisar para, se não forem realizadas directas, mas já eleições primárias, que de acordo com o jornal Público poderão ser aprovadas pela própria Comissão Nacional, a sua continuidade numa liderança partilhada do partido.
A pretensão de Seguro poderá passar pela realização de primárias já no próximo mês de Julho, altura em que está prevista a realização de eleições para as federações de distrito do partido, e a que não será alheia a proximidade da data num momento em que as cisões internas se precipitam.
Este sábado Idália Serrão juntou-se a Susana Amador e Jorge Lacão na lista de demissões do Secretariado Nacional do PS.
Apoiante de Seguro e primeiro proponente da ideia de primárias quando, em 2011, enfrentou o actual secretário-geral na corrida à liderança do partido, Francisco Assis parece aproximar-se da perspectiva de Costa nesta matéria. Na Comissão Nacional de hoje Assis propôs a realização de primárias mas para a escolha do secretário-geral dos socialistas o que, numa primeira instância, parece colidir com o objectivo de Seguro e da maioria dos seus apoiantes.
Estava-se no início dos anos 90, Cavaco Silva tinha conseguido a sua segunda maioria absoluta consecutiva e a liderança socialista personalizada por Jorge Sampaio tremia. António Guterres acalentava há muito a esperança de ser secretário-geral do PS e via na derrota de Sampaio o momento ideal para o substituir. Sampaio não cedeu.
Talvez saída de uma das célebres reuniões nocturnas no sótão de Guterres, surge a ideia de designar Sampaio presidente do PS, com poderes reforçados, o que abriria alas ao antigo primeiro-ministro para assumir o lugar desejado.
Tal transformaria o PS num partido de liderança bipartida, em que o candidato a primeiro-ministro continuaria a ser, ainda assim, o secretário-geral. Mas Sampaio não cederia.
O diferendo resolver-se-ia com a marcação de um congresso extraordinário que Guterres venceria de forma inequívoca. Ficava inviabilizada a hipótese de uma liderança bicéfala.
Mudam os protagonistas, repete-se a história. Como dizia António de Oliveira Salazar, "em política o que parece é", e pode bem ser essa a ideia do delfim de Guterres, António José Seguro, ao querer repetir, em moldes diferentes, a ideia do seu mentor.