"Vice" do BCE critica Alemanha por oposição à OPA do UniCredit sobre o Commerzbank
Luis de Guindos considera que críticas apontadas inclusive pelo chanceler alemão vão contra o espírito de maior união bancária e de investimentos que a União Europeia quer aplicar.
O vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), Luis de Guindos, criticou o Governo alemão pelos comentários feitos contra a operação pública de troca de ações do banco italiano UniCredit sobre o Commerzbank, o segundo maior banco da Alemanha.
"É muito difícil para os governos argumentar que estão a favor da união de poupanças e investimentos se depois dizem: Bem, não, estamos contra esta transação específica", declarou Guindos numa entrevista ao Financial Times.
Nesse sentido, o vice-presidente do BCE argumentou que o "muito fragmentado setor bancário" da Alemanha requer um processo de modernização perante os "grandes" desafios económicos que o país enfrenta. O Governo da Alemanha possui uma participação de 12% no banco alemão.
O próprio chanceler, conservador, Friedrich Merz, lançou críticas ao banco transalpino na semana passada pelas suas táticas "hostis e agressivas", embora tenha indicado: "Precisamos de grandes bancos na Europa para operações de financiamento complexas e para ofertas públicas iniciais". "Mas isso não significa que qualquer tipo de aquisição seja bem-vinda sem restrições", afirmou o líder alemão.
Precisamente, ao ser questionado sobre essas declarações, Luis de Guindos mostrou o seu desapreço pela postura intervencionista do executivo alemão e acrescentou que essa posição não é única na Europa, mas que existem múltiplos exemplos de Estados-membros que tentam interceder nas operações empresariais de caráter estratégico.
"Não é apenas relevante neste exemplo concreto, mas está a acontecer em todo o lado", sustentou, ao mesmo tempo que indicou que "estas medidas vão contra o espírito de um mercado único" e "minam a credibilidade da união da poupança e do investimento".
No passado dia 16 de março, o UniCredit anunciou a intenção de lançar uma oferta pública voluntária de troca de ações sobre o Commerzbank, que avalia em cerca de 35.000 milhões de euros, com o objetivo de superar o limiar dos 30%, embora o banco italiano não preveja chegar a controlar a entidade germânica.
Os acionistas do UniCredit foram convocados recentemente em assembleia geral extraordinária para aprovar a proposta para um aumento de capital de 470 milhões de ações ordinárias com o fim de abordar a oferta pública de aquisição voluntária sobre o Commerzbank.
Embora não tenha querido especificar as vantagens de uma possível fusão entre ambos os bancos, Guindos assinalou que o BCE "está a favor da consolidação transfronteiriça" entre os bancos europeus, graças ao facto de que entidades de maior tamanho podem alcançar economias de escala, melhores avaliações e financiamento mais barato.
"Um verdadeiro grande banco europeu poderia competir com os norte-americanos", defendeu.
Inclusive, a Comissão Europeia abriu recentemente uma consulta pública sobre uma reforma no controlo de fusões empresariais que reflita a influência do contexto geopolítico e comercial atual, facilitando assim a criação de "campeões europeus" capazes de impulsionar a competitividade global da UE.