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São Miguel: o luxo que contraria uma ilha à espera de turistas

O céu, liberalizado há cinco anos, mudou o turismo em São Miguel. Agora, com a pandemia, esse mesmo céu transformou-se na principal barreira para que a ilha recupere do fecho forçado. Há um segmento que parece fugir à tendência generalizada: o superior. Nestes alojamentos, conforto e distanciamento social caminham lado a lado.

Wilson Ledo wilsonledo@negocios.pt 23 de Agosto de 2020 às 12:00
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O sino da igreja de Santa Cruz, na Lagoa, marca o ritmo diário na piscina do Sul Villas & Spa. As espreguiçadeiras, com vista privilegiada para o mar de São Miguel, parecem aguardar por quem as ocupe. Sabe-se que este é um ano diferente: as reservas caem mais em cima da hora. E a semana seguinte é sempre uma incerteza.

Na receção, há um indicador a que se presta atenção constante: a taxa de ocupação das doze "villas" inauguradas no ano passado e que constituem o primeiro projeto a solo de Rodrigo Herédia na hotelaria. Em agosto, chega a rondar os 80%. O número vem sempre acompanhado por um sorriso nos rostos da equipa. Afinal, nem os melhores cenários faziam prever tamanha recuperação.

Por aqui, a noite pode custar acima dos 250 euros: um preço que paga, além do conforto e do design digno das melhores revistas, privacidade. A cozinha equipada reduz muitas deslocações à rua (e riscos associados) para tomar uma refeição. Já para evitar contactos, a procura pelas "villas" com piscina privada tem disparado. Primeiro vieram os locais, à boleia das campanhas promocionais. Os continentais afirmaram-se depois como a maior procura. E, aos poucos, novas nacionalidades se vão juntando: alemães, franceses, britânicos e canadianos são os exemplos mais recorrentes.

A poucos quilómetros, no White Exclusive Suite & Villas, o cenário repete-se. Dez unidades de alojamento que, por estes dias, se encontram com uma ocupação acima dos 70%. Cada noite tem preços que começam nos 290 euros. A exclusividade, refletida no nome e no reduzido número de quartos, ajuda a explicar o desempenho - mas não basta por si. Em contraciclo com o que se vive na região, onde as taxas de ocupação médias rondavam os 10% na hotelaria no início de agosto, há outros fatores a ter em conta nesta equação: o maior poder de compra de quem procura e a sensação de segurança associada às "villas" ou "suites".

À entrada da "vila", apresenta-se um "kit" com máscaras, desinfetante e luvas. "São as nossas novas ‘amenities’", explicam. Para que tudo corra pelo melhor, há regras que não se podem esquecer. Uma apresentação rápida para que se possa passar ao que verdadeiramente importa: descansar, fugindo à incerteza e à confusão sem precedentes que a pandemia trouxe às vidas de todos.

Quando a Singular Properties inaugurou esta unidade, em 2017, queria criar um paraíso mesmo em cima do mar. O fundador João Reis convocou as memórias de férias nas ilhas gregas, adaptando-as à realidade açoriana. Ao branco, juntam-se as madeiras contorcidas mas sempre funcionais, evidenciando essas referências. A simplicidade do por do sol e a piscina infinita pintam depois um retrato que faz esquecer as angústias do quotidiano.

Para evitar aglomerações, tanto no Sul como no White, foi preciso mexer na dinâmica dos pequenos-almoços. À chegada, os hóspedes devem indicar o turno que lhes é mais conveniente, para que tudo esteja a postos. As reservas também são aconselhadas no restaurante do Santa Barbara Eco Beach Resort, na Ribeira Grande, já na costa norte de São Miguel.

A uma terça-feira de agosto, um dia tradicionalmente mais fraco na restauração, as mesas estão completamente cheias. O preço médio por refeição ronda os 40 euros. Se em outras esplanadas da ilha é o sotaque micaelense que impera, aqui a realidade é bem distinta. Embora o restaurante esteja aberto ao público, são os hóspedes deste "resort" – igualmente detido pela Singular Properties – quem está em maioria. Com a consciência de que se está longe dos níveis de anos anteriores, também aqui se trabalha com a satisfação de saber que a quebra não foi tão grande como se previa.

Se a ilha teve de voltar a olhar para dentro nos últimos meses, neste restaurante há muito que se vende o carimbo "regional e sustentável". Por exemplo, para confecionar o principal atrativo da carta, o sushi, é usado apenas peixe capturado ao longo da costa. Nesta falésia, a noite apresenta-se devagar. Apesar das distâncias entre mesas, algo junta o olhar de todos os que aqui jantam. "Há coisas que não têm preço", ouve-se. Mas os tons laranja deste final de dia não conseguem apagar uma ansiedade: o que será do turismo quando os dias voltarem a ficar frios?

O que preciso para viajar para os Açores?

Para viajar para os Açores, é necessário realizar um teste à covid-19. O exame pode ser feito em Portugal continental, até 72 horas antes, através de uma rede de laboratórios definida pelo Governo Regional dos Açores. Para que o teste seja gratuito, basta agendar e apresentar depois o comprovativo de compra da passagem aérea. Os passageiros podem também optar por realizar o despiste na chegada à região, comprometendo-se a um isolamento profilático enquanto não for conhecido o resultado do mesmo. Se a estada na região se prolongar, o teste é repetido ao sexto dia.
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