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Quem tem medo de sair para a rua?

Os especialistas são unânimes em afirmar que é natural sentirmo-nos ansiosos e com algum tipo de disfunção social após termos vivido um ano de pandemia global

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As imagens de esplanadas cheias de gente, de ruas novamente movimentadas ou de jardins apinhados de pais, crianças e jovens marcaram a semana em que o país inaugurou a segunda fase do segundo desconfinamento, numa espécie de novo respirar colectivo que saúda alguma da liberdade perdida. Todavia e em paralelo, são também muitas as pessoas que se recusam a abandonar aquele que foi o seu porto seguro ao longo do último ano ou que sentem uma enorme dificuldade em fazê-lo. O fenómeno, clinicamente conhecido como perturbação de ansiedade social, está em ascensão por causa da pandemia e poderá vir a ter efeitos perniciosos não só na saúde mental de muitos indivíduos, como na sua capacidade de se voltarem a readaptar ao que, até há um ano, era só a vida de todos os dias.

"Esplanar ou esplanadar". Os verbos não existem no nosso léxico, mas têm sido profusamente conjugados ao longo desta semana. Com a Primavera a saudar a fase 2 do segundo desconfinamento e depois de 80 dias com grilhetas reforçadas no já habitual estado de isolamento, não deve ser muito arriscado afirmar que, no guia do que "podemos voltar a fazer", ir a uma esplanada apanhar ar, beber um café ou uma cerveja e conversar com os (ainda poucos) amigos que há tanto tempo não vemos se encontra entre as principais prioridades e satisfações para muitos dos portugueses que saúdam esta reabertura de portas, mesmo que ainda a conta-gotas.

Apesar de ainda mergulhados em índices de transmissibilidade, no x que (para já) se mantém no verde, nos números aos quais já ninguém liga, na preocupação expressada pela Organização Mundial de Saúde face ao contínuo crescimento de casos na Europa, nos atrasos na vacinação e em todas as variantes – não só do vírus – desta história que tem sido a nossa realidade há mais de um ano, a vontade de sair à rua e voltar a ter permissão para os pequenos grandes prazeres que colocámos em pausa durante tanto tempo parece irredutível. Afinal, quem não quer meter o nariz fora de casa e, mesmo de máscara, inspirar esta aragem de liberdade?

Na verdade, nem todos o querem fazer ou se sentem à vontade e/ou com vontade para tal aventura. Dados provenientes de outros países que já passaram pela euforia do regresso à normalidade possível, mesmo sendo esta minimalista, demonstram que existe uma mistura de reacções e sentimentos no que respeita a voltar a socializar, a andar pelas ruas que já não se encontram vazias, a interagir com aqueles com quem se vão cruzando e, em muitos casos também, a regressar ao trabalho ou às escolas. De acordo com Amy Cirbus, Directora do Talkpace, um grupo online de saúde mental que conta actualmente com mais de um milhão de utilizadores provenientes de várias partes do mundo, "muitas pessoas sentem-se aliviadas e felizes por voltarem ao ‘quase-normal’, mas outras tantas estão a experimentar estados de ansiedade frequentes, pois sentem que não estão prontas para enfrentar esta reentrada".

Depois de reportados os inúmeros males, psicológicos e físicos, decorrentes do estado de confinamento que fomos obrigados a cumprir, a verdade é que o "ficar em casa" foi, para muitas pessoas, motivo de conforto, segurança e até prazer e não vai ser fácil ou imediato voltar "lá para fora". E esta internalização do isolamento é considerada por muitos psiquiatras e psicólogos como uma base de comportamento disfuncional, o qual poderá vir a ter efeitos perniciosos não só na saúde mental de muitos indivíduos, como na sua capacidade de se voltarem a readaptar ao que, até há um ano, era só a vida de todos os dias.

Como afirma ao The Guardian Emma Warnock-Parkes, psicóloga e investigadora do que é denominado como "perturbação de ansiedade social" (ou fobia social), "na medida em que todos nós estivemos socialmente privados ao longo do último ano, é normal que algumas pessoas se sintam desconfortáveis a voltar a abrir a janela da socialização, ainda para mais no meio de uma situação que se apresenta ainda longe de estar controlada e onde as próprias normas e rituais sociais sofreram transformações profundas".

Por outro lado, e sendo a espécie humana, apesar de adaptável, muito dada a hábitos e a rotinas, se no início o ajustamento à pandemia e ao isolamento forçado foi extremamente difícil, a verdade é que quase toda a gente acabou por se acostumar a viver a sua vida dentro de quatro paredes e não é completamente descabido que surjam dificuldades de readaptação a uma velha mas simultaneamente nova realidade. Ou, e em suma, é normal a existência de alguma ansiedade neste regresso, em particular porque subsiste o medo do contágio, a par de algum receio em reaprender as normas da socialização, em particular porque também estas sofreram alterações. Ou seja, e embora ainda não seja este o caso, o ajustamento ao mundo pós-pandémico, mesmo que há muito o desejemos, poderá não ser livre de algum tipo de desconforto.

Por outro lado, está igualmente comprovado que longos períodos de isolamento aumentam a ansiedade ou fobia social, o que irá agravar o estado de quem já convivia com este transtorno psicológico, mas também passar a ser uma inevitabilidade para muitas pessoas que, entretanto, se habituaram a considerar as suas casas e o seu isolamento como o único porto seguro possível. E mesmo que há muito sonhemos com um mundo em que as reuniões com amigos e familiares voltem a ser possíveis, onde possamos voltar a ver os sorrisos dos que connosco interagem, onde as conversas não sejam abruptamente interrompidas porque a reunião do Zoom chegou ao fim, é tanto o tempo em que tudo isso nos foi negado que voltar a fazê-lo poderá transformar-se num factor de angústia e perturbação.

Sair da "bolha" não vai ser fácil nem igual para todos

Como afirma à USAToday Lynn Bufka, directora sénior na American Psychological Association (APA), "a Covid mudou definitivamente a nossa experiência, a nossa percepção do que é considerado normal e devemos esperar que haja um período de tempo em que a forma como respondemos ao mundo à nossa volta será diferente e durante o qual nos poderemos sentir potencialmente estranhos". Na medida em que a pandemia nos forçou a uma experiência social maciça – nunca antes tínhamos sofrido este isolamento obrigatório e em tão grande escala – será que a mesma mudou fundamentalmente as nossas vidas sociais ou simplesmente as interrompeu? De acordo com o relatório "Stress in America 2021: Pandemic Stress One Year On", quase metade dos inquiridos afirma sentir-se desconfortável quando pensa na interacção presencial com os seus pares na altura em que a pandemia der tréguas, sendo que este mal-estar provou-se idêntico tanto para os que ainda não receberam a vacina como para os que já foram inoculados, e com muitos dos respondentes a confessarem que "há um ano que desejo este regresso e agora que está perto não sei como vou lidar com ele".

Vários especialistas, por seu turno, alertam para a existência de um período de ajustamento colectivo, com uma ampla variabilidade nas atitudes e comportamentos das pessoas nos meses que se irão seguir à reabertura progressiva da sociedade e, mais ainda, no período pós-pandémico. Todavia, e como refere Martin Antony, professor de psicologia na Universidade de Ryersonm em Toronto, e co-autor do livro "The Anti-Anxiety Program", também é certo que o fenómeno vai afectar as pessoas de forma distinta, ou seja, "nem toda a gente irá padecer de ansiedade social, com algumas a sofrerem desta disfunção e outras a não terem qualquer tipo de problema".


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