"A arte contemporânea é como atirar uma moeda ao ar"
Os gostos mudam. As modas passam. Por isso, é preciso comprar obras pelo prazer que proporcionam, defende o especialista do Sotheby"s. O mercado de arte também foi atingido pela crise. Isto significa que agora é um bom momento para entrar neste...
Os gostos mudam. As modas passam. Por isso, é preciso comprar obras pelo prazer que proporcionam, defende o especialista do Sotheby's
O mercado de arte também foi atingido pela crise. Isto significa que agora é um bom momento para entrar neste mercado?É um bom momento. Os preços caíram abaixo do seu nível natural no final do ano passado e estão a agora a recuperar. Neste momento, estão no valor justo.
Há segmentos particularmente atractivos?
O mobiliário é sempre uma boa aposta. O inglês, o francês, o do período georgiano. Este é um óptimo momento para comprar, porque estão subvalorizados. É, aliás, um dos poucos segmentos que está a negociar abaixo do valor real. A prata inglesa também está bastante atractiva e certos domínios do mercado dos grandes mestres também estão muito impressionantes. Caso se escolha de forma muito cuidadosa, também há muito bons negócios na arte contemporânea. A fotografia representa, muito provavelmente, a melhor aposta neste momento. Sobretudo a da escola de Dusseldorf. Os preços não sofreram o "crash" da arte contemporânea.
Como é que se consegue distinguir, na arte contemporânea, um bom de um mau artista?
Não se consegue. Tem tudo muito a ver com o "dealer" a quem se compra a obra: se consegue persuadir um museu a fazer uma exposição do trabalho do artista; se consegue garantir uma boa crítica. Vou ser honesto, em muita da arte contemporânea, o sucesso tem muito mais a ver com o mercado do que com a qualidade individual de uma peça ou de um artista.
Iain Robertson,
responsável pelo departamento de estudos
em negócios da arte, do Sotheby's Institute of Art.
O que é que constitui um bom portfólio de arte?
Primeiro, tem que ser altamente diversificado. Se se quiser constituir uma carteira exclusivamente em arte contemporânea, então a arte "mainstrean" europeia e americana deve corresponder a 25% da carteira, fotografia deverá pesar outros 25%, a arte emergente de países como a Índia ou a China outros 25% e, talvez, 25% em trabalhos em DVD e animação. Claro que quem pretender ter uma carteira muito mais extensa, os grandes mestres são garantidos e as obras contemporâneas chineses garantem uma diversificação tremenda.
Quais são os maiores riscos de investir em arte?
No mercado de antiguidades, o principal risco é se o activo é genuíno. Isto é especialmente verdade para a arte chinesa. Há tantas falsificações. Em segundo lugar há o problema do gosto mudar. Não é uma coisa que ocorra de imediato, mas muda muito rapidamente e, por isso, o comprador pode passar a ter em mãos uma obra que passou de moda e é difícil de vender. O terceiro elemento é o custo da propriedade. A maioria das pessoas não tem noção, mas é muito caro manter uma obra. É preciso ter seguros, há custos de transacção, restauração. Além disso, há sempre o perigo de uma obra ser danificada. É um objecto, é algo frágil.
A arte moderna e contemporânea sofreu um "crash" em Outubro de 2008. Nos restantes activos, como é o caso dos financeiros, a recuperação das perdas por vezes, demora anos. Funciona da mesma forma na arte?
Na arte moderna, uma vez que o valor tenha deixado o mercado, ele não regressa. Porque a arte tem a ver com reputação. Uma vez perdida a reputação, podem demorar 100 anos até recuperar. Um bom exemplo são aos artistas da época vitoriana ou os do início do século XIX, como Paul Delaroche, o pintor francês. Era muito popular durante o seu período de vida. Mas logo depois ficou fora de moda, porque começou o modernismo. Demorou um século a recuperar. Os preços caíram de centenas de milhares de libras para algumas libras. Pode demorar uma ou até duas gerações a recuperar.
Então a arte é altamente arriscada?
A arte contemporânea é altamente arriscada. Porque não se sabe quem vai sobreviver. É como atirar uma moeda ao ar.