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Pode a soja mudar a cena política nos EUA?

Grande parte da América rural continua a apoiar Trump, mas a guerra comercial com a China pode virar o jogo nas eleições, já que Biden é tido como um candidato que irá diminuir as tensões entre as duas maiores economias do mundo. E a soja vai ter muito peso.

A soja foi uma das principais armas de arremesso da China na guerra comercial com os EUA. Com a fase 1 do acordo entre os dois países, o cenário mudou, mas ainda não é brilhante.
A soja foi uma das principais armas de arremesso da China na guerra comercial com os EUA. Com a fase 1 do acordo entre os dois países, o cenário mudou, mas ainda não é brilhante. Dave Kaup/Reuters
Carla Pedro cpedro@negocios.pt 27 de Outubro de 2020 às 22:06
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"Claro que todos sabem que sou o ingrediente-chave do tofu e do molho de soja. Mas eu e a minha família também podemos ser transformados em óleo de soja, que tempera os vossos alimentos preferidos, como bolos, bolachas e pão. Os seres humanos não são os únicos que nos comem, uma vez que somos uma fonte de alimento essencial para os peixes e para os animais de quinta, como galinhas, porcos e bovinos." Era assim que a China exaltava, há dois anos, as muitas virtudes da soja, uma oleaginosa que tem estado constantemente em foco na guerra comercial entre Washington e Pequim.

Nessa altura, o regime de Pequim procurava mostrar aos agricultores norte-americanos o quanto poderiam ser prejudicados pelas tarifas aduaneiras adicionais que iria impor às importações de soja dos EUA, em retaliação pelas taxas alfandegárias que a Administração Trump vinha também a decretar sobre inúmeros produtos chineses. Mas a fase 1 do acordo comercial entre as duas maiores economias do mundo ditou um destino diferente à soja, já que Pequim se comprometeu a importar um volume significativo da oleaginosa.

E se no primeiro trimestre deste ano – altura em que a fase 1 do acordo foi entrando lentamente em vigor – essas compras tiveram pouca expressão nos preços, agora o rumo mudou. Entre janeiro e março, a cotação da soja caiu mais de 10%, no segundo trimestre já subiu ligeiramente e no terceiro escalou 16%, pondo esta “commodity” agrícola em terreno positivo no acumulado do ano. Ainda assim, “embora a China tenha acelerado as compras de produtos americanos recentemente, parece altamente incerto se a meta da fase 1 será atingida este ano, já que, até ao final de agosto, Pequim tinha cumprido apenas cerca de 33% dos compromissos assumidos para o total do ano”, sublinha a XTB Online Trading.

Poderá então a guerra comercial influenciar os agricultores norte-americanos quando forem às urnas no próximo dia 3 de novembro? As opiniões dividem-se.

América rural ainda muito fiel a Trump

“Em inícios deste outono, vi uma sondagem online do Farm Journal perguntando aos agricultores em quem votariam nas eleições. E o resultado foi de 85% de apoio a Trump. Fiquei curioso e também fiz uma sondagem no Twitter, onde tenho cerca de 32.000 seguidores – a maioria agricultores e outros intervenientes da indústria agrícola. É certo que uma sondagem numa rede social não é científica, mas revelou que 71% dos participantes sentiam que as políticas de Trump seriam melhores para a agricultura do que as de Biden”, comentou ao Negócios o economista-chefe do departamento de “commodities” da StoneX Financial, Arlan Suderman.

Suderman considera que este resultado poderá parecer estranho para um observador comum, mas a sua conclusão é a de que “a maioria dos agricultores sente que Trump é o primeiro Presidente a enfrentar as práticas comerciais injustas de Pequim, que ao longo de anos restringiu praticamente todas as matérias-primas agrícolas exportadas para a China, exceto a soja”. “E a China já estava também a reduzir as suas compras de soja norte-americana antes da guerra comercial”, salienta.

Além disso, “os agricultores estavam bastante desagradados com as pesadas regulamentações ambientais que os penalizaram durante a Administração Obama-Biden”, aponta. “Não sou analista político, mas é esta a minha avaliação sobre o porquê de haver tanto apoio generalizado ao Presidente Trump na América rural. Esse apoio aumentou quando a China abriu portas à compra massiva de soja, carne de porco, milho e trigo dos EUA nos últimos meses”, refere, a propósito dos compromissos assumidos por Pequim na fase 1 do acordo comercial.

Também o The Wall Street Journal refere que muitos agricultores continuam a apoiar Trump, apesar dos dissabores da guerra comercial, porque acreditam que uma presidência com Joe Biden trará regulações ambientais mais estritas e impostos mais elevados.

Outra razão apontada para esse apoio prende-se com os subsídios que a Administração Trump tem dado ao setor. “Nas eleições de 2016, os agricultores apoiaram esmagadoramente Trump e continuam a ser muito importantes para a sua reeleição em vários ‘swing states’ [que tanto votam no partido republicano como no democrata], como o Iowa e o Minnesota. Mas nos últimos anos sofreram bastante com a guerra comercial com a China, os desastres naturais e a pandemia de covid-19. Tendo em conta o impacto de tudo isto, será que vão continuar a apoiá-lo?”, perguntava há dias o The Conversation.

Parece que sim. Segundo este site de notícias e análise, apesar de os custos económicos terem sido enormes, Trump arranjou uma forma de os contornar através da atribuição de subsídios recorde. “É por isso que estamos convictos de que a maioria dos agricultores dos EUA se manterá leal a Trump”, destaca. Ainda assim, dois estudos recentes mostram que os candidatos republicanos perderam apoio nas eleições de 2018 para o Congresso nos condados mais expostos à retaliação comercial, bem como nas regiões com maior produção de soja. “Nem todos os agricultores estão satisfeitos com Trump. Um agricultor do Ohio lamentava recentemente o facto de o Presidente ‘fazer sempre o mesmo: penaliza-nos e depois dá-nos dinheiro para não levantarmos ondas’”, diz o The Conversation.

Os estados maiores produtores

Tudo está, assim, ainda em aberto. A Bloomberg Intelligence considera que Biden poderá ser uma melhor escolha para matérias-primas agrícolas como o milho, o trigo e a soja, já que o candidato democrata deverá levar a uma diminuição das tensões comerciais com a China.

Já Mário Martins, analista da ActivTrades, sublinha que muito dependerá do que sair das urnas em estados-chave. “No Illinois, Minnesota, Indiana, Ohio, Dakota do Norte e Arkansas, que são alguns dos maiores estados produtores de soja nos EUA, o total de delegados é de 68, o que corresponde a 25% do total necessário para um candidato ser eleito (270). Deste total, Biden deverá garantir praticamente 30 votos e Trump 14. Se Biden ganhar Ohio fica com um total de 48 votos dos 68 possíveis”.

Então as tensões com Pequim podem virar o jogo? No entender de Mário Martins, é possível. “A guerra comercial com a China pode ter custado a Trump a reeleição, não só nos estados produtores de soja, como também no ‘rust belt’, uma zona de produção industrial em declínio desde os anos 80 e que se sobrepõe parcialmente aos estados produtores de soja – Pensilvânia, Ohio, Michigan, Indiana, Illinois e Wisconsin.”

Em três destes estados, diz o analista da ActivTrades, a situação é ainda mais problemática para Trump. “Michigan: Trump ganhou [em 2016] por 0,3 pontos percentuais (pp) e Biden tem agora uma vantagem de 7,2 pontos; Wisconsin: Trump ganhou por 0,7 pp e Biden tem agora uma vantagem de 10 pontos; e Pensilvânia: Trump ganhou também por 0,7 pp e Biden está na frente com uma vantagem de 7 pontos.” “Estes estados têm 46 delegados que passam de republicanos a democratas. Se não houvesse mais nenhuma alteração dos votos de 2016 para 2020, Biden ganharia as eleições com 273 votos do colégio eleitoral.”



 

O apoio a Trump aumentou quando a China abriu portas à compra massiva de soja (...) dos EUA. arlan Suderman
Economista-chefe de commodities na StoneX Financial Inc

 

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