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Apostas dos "hedge funds" contra dívida italiana em máximos de 2008

A crise política em Roma, conjugada com a crise energética elevou o montante total dos títulos italianos emprestados pelos investidores em agosto para apostas numa queda dos mesmos para máximos desde janeiro de 2008.

1.º Roma
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Fábio Carvalho da Silva fabiosilva@negocios.pt 25 de Agosto de 2022 às 13:30
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As apostas dos grandes fundos contra as obrigações italianas estão em alta. A crise política em Roma e a crise energética levaram a um aumento do montante total dos títulos de dívida italianos "emprestados", em agosto, a investidores com o objetivo de "shortar", ou seja, apostar numa queda dos mesmos. Está no valor mais alto desde janeiro de 2008.

 

Ao todo foram emprestados mais de 39 mil milhões de euros este mês, de acordo com os dados da S&P Global Market Intelligence, citados pelo diário britânico Financial Times (FT). "[Itália] é o [país] mais exposto em termos do que acontece com os preços do gás, além de que a situação política é desafiante", explicou Mark Dowding, diretor de investimentos da BlueBay Asset Management, uma gestora que administra 106 mil milhões de dólares em ativos.

 

A BlueBay Asset Management recorre a um instrumento financeiro derivado, os futuros, para apostar contra as obrigações italianas a dez anos.

 

Desde o início do ano, a "yield" da dívida italiana a dez anos disparou de 1,67% (contabilizado a 31 de dezembro do ano passado), tendo chegado a renovar máximos de 2014 ao tocar nos 4,163% em junho deste ano. Durante a sessão desta quinta-feira, os juros das obrigações italianas com esta maturidade acompanham a tendência da Zona Euro e aliviam 11,8 pontos base para 3,545%.

 

O "spread" face ao "benchmark" alemão fixa-se em 220,7 pontos base, abaixo dos 250 pontos base, um valor apontando pelos especialistas como a linha vermelha do Banco Central Europeu (BCE). Aliás, quando a autoridade monetária convocou uma reunião de emergência em meados de junho, o "spread" estava muito perto deste valor.


A percepção de risco deve-se à crise política que se vive em Itália. O país tem eleições agendadas para setembro, depois do primeiro-ministro italiano, Mario Draghi, se ter demitido em julho não tendo conseguido o apoio dos partidos que sustentavam o Governo.

 

O ex-presidente do Banco Central Europeu (BCE), liderou o governo italiano com uma coligação com vários partidos, mas apresentou sua demissão duas vezes, tendo o Presidente Sergio Mattarella aceitado apenas à segunda, após o Parlamento ter deixado claro que não apoiaria Draghi.

 

Além disso, Itália é uma das protagonistas da crise energética que se vive na Europa. O FMI alertou no mês passado que um embargo de gás russo levaria a uma contração económica de mais de 5% na Itália e em três outros países bloco, a menos que fosse adotada uma solução comum.

 

Assim, como outros países do Sul (onde também se encaixa Portugal) Itália é também particularmente sensível aos desenvolvimentos dos programas de compra de ativos do BCE. Com o fim da fase de compras líquidas no âmbito do programa pandémico (o PEPP), o banco central está apenas numa fase de reinvestimento dos montantes que já atingiram as maturidades tendo assegurado, pela voz de da presidente Christine Lagarde, ser "flexível".

 

O prometido é devido e já se refletiu nos últimos dados revelados pela autoridade monetária no início deste mês e que indicam que os reinvestimentos estão a ser feitos de forma direcionada. Os dados do BCE referentes à compra de dívida no âmbito do programa pandémico (o PEPP) indicam que a quantidade de obrigações da Alemanha, França e Países Baixos detida recuou em 18,9 mil milhões de euros.

 

Em sentido contrário, a dívida de Itália, Espanha, Portugal e Grécia nas mãos do BCE aumentou em 17,3 mil milhões de euros. Os números foram os primeiros divulgados pelo banco central liderado por Christine Lagarde desde que lançou o escudo anti-crise para evitar a fragmentação da Zona Euro.

 

O instrumento, que pretende travar o investimento especulativo, ainda não foi acionado - para o ser feito é precisa uma avaliação por parte do conselho de governadores com base na evolução do mercado - e os novos dados indicam que estará a optar por usar a flexibilidade que tem disponível.

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