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Faria de Oliveira: “Nesta crise, os bancos são parte da solução”

Fernando Faria de Oliveira avisa que “é essencial evitar que uma crise financeira possa surgir, novamente, na sequência da recessão em curso”, porque “uma banca fragilizada não conseguirá ser motor da economia”.

Filipe S. Fernandes 22 de Outubro de 2020 às 13:00
Faria de Oliveira alerta para as grandes divergências ao nível das moratórias entre os países da UE. Bruno Simão
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"Nesta crise, os bancos têm-se assumido indiscutivelmente como parte da solução", sublinha Fernando Faria de Oliveira, presidente da Associação Portuguesa de Bancos. Considera que desde o início desta crise, os bancos têm estado na linha da frente no apoio a famílias e empresas. A criação de moratórias para o crédito hipotecário e para o crédito ao consumo, a disponibilização de linhas de crédito às empresas, a redução dos encargos com a utilização da banca digital, são alguns exemplos.

No primeiro semestre de 2020, os cinco maiores bancos nacionais (Caixa Geral de Depósitos (CGD), Santander Portugal, BCP, BPI e Novo Banco), concederam mais de seis mil milhões de euros em linhas de crédito e mais de 37 mil milhões em moratórias de 400 mil clientes.

Alerta para as grandes divergências ao nível das moratórias e linhas de crédito garantidas concedidas nos diferentes membros da União Europeia. Segundo a DBRS, Portugal está na frente na relação moratórias/crédito bruto, o que também comporta riscos: 21,5%, seguido da Irlanda com 13,4%, do Reino Unido (9,8%), de Itália (9,3%), Espanha (9,2%) e França (5,4%). Todos os outros países situam-se abaixo dos 5%. "Também em termos de prazos as moratórias nacionais são as mais generosas, procurando-se compensar a comparativamente menor dimensão de outros apoios às empresas", refere Faria de Oliveira.

Mais custos na banca

Adiantou ainda o facto de em todo o espaço europeu se terem tomado medidas de flexibilização regulatória e de supervisão para suportar os custos da crise para o sistema financeiro. É uma forma de permitir que a banca esteja em condições de desempenhar o seu papel no financiamento a famílias e empresas e na recuperação económica.

No entanto, Fernando Faria de Oliveira não se conforma com o facto de decisões governamentais e parlamentares significarem mais custos para a banca. Por um lado, o adicional de solidariedade "aplicado discriminatoriamente e exclusivamente ao setor bancário" e, por outro, "procurando subtrair-lhe proveitos legítimos como deriva das iniciativas legislativas para limitação de comissões legitimamente, cobradas".

A pandemia tem impactado na rentabilidade das instituições bancárias, através da necessidade de reforçar a constituição de provisões. No primeiro semestre de 2020, os resultados dos bancos nacionais registaram uma quebra de 77% muito influenciados pelos resultados negativos de 555,3 milhões do Novo Banco, pois caso contrário os resultados seriam marginalmente positivos.

No primeiro semestre de 2020, CGD, BCP, Santander, BPI, Novo Banco e Montepio registaram 696,2 milhões de euros em provisões e imparidades. Segundo a Associação Portuguesa de Bancos (APB), as imparidades em percentagem do produto bancário passaram de 16,3% no primeiro semestre de 2019 para 25,7% nos primeiros seis meses de 2020.

Corrida de obstáculos

Faria de Oliveira avisa que pode haver um aumento do crédito malparado com o fim das moratórias. Tudo "irá depender do nível de apoios públicos dados a famílias e empresas, sendo fundamental que a resposta musculada a nível europeu para a retoma se concretize a tempo de evitar problemas maiores". Acrescenta que "é essencial evitar que uma crise financeira possa surgir, novamente, na sequência da recessão em curso", porque "uma banca fragilizada não conseguirá ser motor da economia".

14,6%Rácio de CETI
O rácio de CETI (Common Equity Tier I) dos bancos é atualmente de 14,6%. Em 2011, situava-se em 27,8% 
O setor bancário em Portugal vive uma longa corrida de obstáculos, desde a crise financeira de 2008 até à crise sanitária da covid-19, passando pela crise das dívidas soberanas que trouxe a troika entre abril de 2011 e maio de 2014. Mas os desafios que enfrenta nos últimos anos já são intensos e passam pela melhoria da rentabilidade, adaptação aos novos modelos de negócio, regulação e recuperação da reputação.

O setor bancário português está hoje mais bem preparado para enfrentar choques adversos do que estava no início da última crise financeira. Os bancos estão mais sólidos e capitalizados (rácio de CET1 de 14,6% vs. 7,8% em 2011), não têm problemas de liquidez, os rácios de NPL têm vindo a registar uma forte descida, passou de perto de 46 mil milhões, em 2016, para cerca de 16 mil milhões de euros até junho deste ano, e as práticas de gestão de risco foram reforçadas. "Naturalmente, os bancos com maiores rácios de capital e menores rácios de NPL estarão, mesmo com a certeza da diminuição forte da sua rentabilidade, em melhores condições para serem parte relevante na superação da crise", concluiu Fernando Faria de Oliveira.

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