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O desafio da transformação digital da agricultura

A inovação e a tecnologia não devem ser vistas como uma forma de majoração no acessoaos fundos comunitários de apoio, mas são estruturais para a eficiência de médio e longo prazo.

Filipe S. Fernandes 15 de Dezembro de 2020 às 16:00
Cláudia Domingues, presidente da InovCluster
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"Portugal está atrasado em vinte anos em relação à Europa, porque não atualiza os métodos produtivos e o conhecimento. Tem havido maior aquisição de dados em Portugal, mas o grosso dos projetos são montados com os equipamentos e as especificações técnicas como há vinte anos. Muitos projetos são fotocópias de metodologias de há duas décadas, o que faz com que não haja dinheiro para desenvolver as soluções tecnológicas que são criadas em Portugal", refere Filipe Conceição, executivo da Fulgur It. Esta empresa tecnológica do Grupo Hubel nasceu pelo processo de transformação digital do grupo na sua procura das melhores práticas e soluções para uma agricultura de precisão.

"As start-ups têm dificuldades em singrar em Portugal porque a tecnologia não é pedida." Sublinha que quem procura inovação e soluções tecnológicas são as grandes empresas, porque têm "grandes pressões para cortar custos e tornar os dados mais transparentes nas suas organizações". Conclui que "não estamos mais à frente por falta de capacidade ou de conhecimento, mas pela forma como o negócio agrícola é gerido em Portugal", considera Filipe Conceição.

Filipe Conceição, executivo da Fulgur It

Bruno Fonseca, CEO da Agroop, reforçou esta ideia. Considerou que, "mais importante do que subsidiar a tecnologia seria que, no próximo quadro comunitário de apoio, se privilegiasse a formação dos novos agricultores e dos agricultores já instalados para perceberem que a tecnologia não é um fim em si mesmo, não é apenas um subterfúgio para se conseguir uma majoração nos fundos comunitários, mas uma medida estrutural para uma eficiência de médio e longo prazo".

O papel da tecnologia

A Agroop desenvolveu uma plataforma muito focada na gestão hídrica, que é transversal ao setor agrícola, e que foi o ponto de entrada no mercado. Mas o objetivo é, "a médio e longo prazo, abrir gradualmente a proposta de valor e introduzir temáticas de prevenção de risco, como pragas, doenças e fungos, e ajudar os agricultores a identificar fatores de melhoria e a serem mais eficientes", explicou Bruno Fonseca.

Bruno Fonseca, CEO da Agroop

Sublinhou que a solução mais simples custa 1.500 euros. "Na recuperação do investimento em termos de poupanças e produtividade há vários fatores a considerar, mas, de acordo com alguns casos de estudo que temos, conseguimos poupanças significativas, 33% na poupança hídrica e energética no transporte de água até ao seu destino, que se pode repercutir num retorno de investimento em menos de um ano".

"A tecnologia corresponde ao que é a nossa visão dos desafios como o crescimento populacional, as alterações climáticas, que terão impacto na atual produção e distribuição de produtos agrícolas, a sustentabilidade tanto na produção como no uso dos recursos, como a otimização energética, hídrica, solos", referiu João Pereira, diretor digital da Portugal Ventures, capital de risco público, que tem como política o investimento em start-ups e early stage em vários setores, incluindo a agricultura.

João Pereira, diretor digital da Portugal Ventures

Considerou que a Portugal Ventures se coloca ainda mais dois desafios. O combate ao desperdício na produção, na distribuição, nos canais de acesso, nos consumidores. O processo de globalização ou de desglobalização "tem implicações em Portugal, que é membro da União Europeia, em que as questões da produção agrícola são em especial consideradas sensíveis e por isso alvo de grande cuidado quando partimos para negociações multilaterais", concluiu João Pereira.

Soluções integradas

A experiência de Filipe Conceição, administrador de várias empresas do Grupo Hubel, mostra-lhe que a inovação na agricultura apresenta muitas soluções fechadas, de escassa integração, ao contrário do que acontece na indústria transformadora. "Foi a nossa experiência industrial, na automação, bombagens e equipamentos que nos fez apostar em desenvolver a nossa própria plataforma de comando e aquisição de dados. Uma solução mais aberta e integradora, em que os dados do campo, da instalação e da plantação acessíveis a toda a organização tanto a nossa como a dos nossos clientes, e ter os dados facilmente exportáveis nas outras plataformas".

Referiu que dentro de 10 anos querem ter a integração tecnológica total das explorações agrícolas, maior transformação digital da empresa. "Estamos a fazer consultoria na transformação digital, o grupo está a preparar a internacionalização no Médio Oriente e Palop. A própria Hubel Verde faz muita biotecnologia para os produtos biológicos. Ser cada vez mais um agente de transformação digital, que é transformar pessoas."

Entre os objetivos da Agenda de Inovação para a Agricultura 2020-2030, lançada em outubro passado, contam-se aumentar o I&D em 60%, atrair mais pessoas para a agricultura e que 80% dos jovens agricultores se instalem no interior. Segundo João Pereira, "o ecossistema deve dar o suporte a quem tem a criatividade ou a invenção para passar do período inicial até à comercialização, em aspetos como a proteção da propriedade intelectual, o licenciamento, o desenvolvimento e transformação dessa tecnologia em produto ou a incorporação".

"O rejuvenescimento do próprio setor é um desígnio particularmente estratégico", confirmou Cláudia Domingues, presidente da InovCluster, que tem 174 associados. O InovCluster tem um projeto da Valorização dos Queijos da Região Centro e uma das ações é uma escola de pastores, "que é uma ação de capacitação disruptiva, fora do que normalmente temos oportunidade para oferecer e que tem muitos jovens interessados". Acresce ainda um banco de terras disponíveis na serra da Estrela.

O agrodigital  O webinar "Inovar na Nova Era Digital-Agricultura no Pós-Covid 19" promovido no âmbito do 9.º do Prémio Nacional da Agricultura 2020, que é promovido pelo Correio da Manhã, Jornal de Negócios e o BPI, e conta com o patrocínio do Ministério da Agricultura e o apoio da PwC. A abertura foi feita por Pedro Barreto, administrador do BPI, o debate foi moderado por Jorge Portugal, diretor-geral da Cotec, e contou com Cláudia Domingues, presidente da InovCluster e vereadora da Câmara Municipal de Castelo Branco, Bruno Fonseca, CEO da Agroop, Filipe Conceição, diretor executivo Fulgur It, empresa do grupo Hubel, e João Pereira, diretor digital da Portugal Ventures.