A saúde em tempos de "big data"

O "big data", a gestão de grandes quantidades de informação, é um dos domínios onde o impacto da recolha, tratamento e análise de dados é maior. Vai desde a prevenção e o diagnóstico até à investigação clínica e farmacêutica.
Filipe S. Fernandes 16 de agosto de 2016 às 10:05

Joel Selanikio
, Epidemologista, CEO e co-fundador da Magpi


A 14 de abril de 2003 fez-se história ao completar-se pela primeira vez a sequência do genoma humano, ao fim de 13 anos de investigação e de um investimento de 2,6 mil milhões de dólares. Hoje com cerca de 900 euros e uma semana consegue-se uma sequenciação graças à melhoria e à redução de custos com as técnicas baseadas no "big data". Mas não é apenas na saúde de ponta que isto acontece. Bons dados é o princípio base. Depois tem de se dispor das ferramentas certas e adequadas para que os dados possam ser utilizados e se transformem em informação pertinente de forma a chegar-se ao conhecimento.

Há uma grande transformação na saúde baseada no fenómeno da "big data", com o aumento vertiginoso do número e diversidade de dados digitalizados que circulam, são tratados, analisados e utilizados à escala global. O "big data" em números é uma autêntica vertigem. Os números são avassaladores. Em 2020 o sector gerará em todo o mundo 25 mil "petabytes" de informação, mais 5000% dos que nos oito anos anteriores, antevê um estudo da IBM. Por sua vez o relatório Global Big Data in Healthcare prevê que em 2022 a indústria de "big data" em saúde valerá cerca de 30 mil milhões de euros.

A nuvem ("cloud") é o grande motor desta implantação do "big data". Joel Selanikio, que com Rose Donne, lançou a aplicação EpiSurveyor para fazer a recolha de dados, foi inspirado no facto de ter observado que todos os seus colaboradores, num país africano onde estava em missão, usavam o mail devido à "cloud", o que permitia a recolha de dados de uma forma simples, extensiva e fidedigna. Um estudo da Markets and Markets estima que a indústria de apps e as aplicações para a saúde vão-se multiplicar por três nos próximos cinco anos, ultrapassando os 9 mil milhões de euros. E as aplicações têm proliferado. Existem mais 160.000 apps de saúde com mais de 500 milhões de utilizadores. E em Portugal há muitos e vários exemplos.
cotacao Muitas vezes as políticas públicas de saúde foram baseadas em poucos dados, dados antigos ou mesmos nenhuns dados. Joel Selanikio Epidemologista, CEO e co-fundador da Magpi
Hoje a quantidade de dados existente nos sistemas de saúde, como o português, é gigantesca. Vai dos registos clínicos nos hospitais, centros de saúde, clínicas, consultórios, à prescrição electrónica, à conferência de facturas, aos registos de doenças raras, hemodiálise, oncológicas, os exames de diagnóstico, as doenças transmissíveis, a gestão da doença como a monitorização de doentes com doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) ou o SICO - Sistema de Informação dos Certificados de Óbito, passando pelas mais diversas aplicações e apps que entidades ligadas à saúde e às tecnologias lançam todos os dias. São exemplos da muita informação disponível, mas o que falta, muitas vezes, até por questão de protecção de dados e dos direitos individuais, é a integração entre os vários "players" da saúde.

A saúde torna-se mais participativa, preventiva, preditiva, precisa e personalizada. A relação entre médicos, doentes, sistemas de saúde, farmacêuticas, seguradoras e empresas de tecnologia e software ganha novos contornos. As mudanças são grandes. Os médicos passam a utilizar técnicas analíticas para diagnosticar e tratar o doente com base em informação clínica de registos médicos electrónicos de um grande volume de doentes. Por sua vez os doentes usam a sua própria informação de saúde para tomarem melhores decisões e as redes de informação centradas no doente ajudam as pessoas a gerir de forma eficiente a sua saúde e a compartilhar boas práticas a custos reduzidos. As redes de partilha de dados avançadas permitem aos prestadores aceder, em tempo real, às informações médicas do doente.

As comunicações móveis, em que a utilização e a acessibilidade de telemóvel é um fenómeno global, fazem da denominada "mHealth revolution" uma alternativa intuitiva e de fácil acesso aos cuidados de saúde tradicionais. Também o social media ou redes sociais permitem que as organizações de saúde interajam com o doente, avaliando regularmente as suas necessidades e conduzindo-os a produtos e serviços adequados.

Benefícios e Desafios do "big data" Benefícios • Melhorar a qualidade da prestação de cuidados de saúde
• Reduzir custos
• Diagnosticar as doenças em estágios iniciais
• Fornecer um tratamento personalizado
• Gerir a doença crónica de forma proactiva 


Desafios• Mudança de paradigma na prestação de cuidados de saúde
• Modelos de pagamento/financiamento
• Mudança cultural
• Segurança e privacidade dos dados
• Rigor e qualidade da informação 
Fonte: Deloitte Consultores