“A floresta portuguesa vive ho-je sobre uma pressão crescente que não pode ser lida como um fenómeno episódico. Importa assumir com rigor que não há soluções simples, mas também reconhecer que não nos estamos a preparar enquanto país para esta nova realidade”, afirmou António Redondo, presidente da Biond, durante o encerramento da cerimónia de entrega de prémios da 5.ª edição do Prémio Floresta é Sustentabilidade, iniciativa da Biond em parceria com o Negócios e o Correio da Manhã.
Para António Redondo, a raiz do problema é estrutural e multidimensional com a fragmentação fundiária, a ausência de ordenamento efetivo, a dificuldade emtraduzir o conhecimento técnico-científico em políticas públicas e, sobretudo, incapacidade de executar com rapidez aquilo que sucessivamente se identifica como prioritário. Este cenário foi agravado pela tempestade Kristin, que “devastou extensas áreas, deixando no terreno grandes volumes de material lenhoso que, não sendo rapidamente removidos ou geridos, aumentam dramaticamente a carga combustível e exponenciam o risco para o próximo verão, ilustrando bem este novo ciclo em que fenómenos extremos se sucedem e se reforçam mutuamente”, considerou António Redondo.
O presidente da Biondi fez uma análise quantitativa a partir de dados públicos para ilustrar a dimensão real da biomassa acumulada após as intempéries de janeiro e fevereiro. Se nos mais de 60 concelhos afetados, que contêm cerca de 855 mil hectares de floresta, “só tivermos 25 mil hectares a necessitar de intervenção - o que não chega a 3% dessa floresta, estes são os dados do Governo - e se o volume de madeira tombada ou partida, acumulada no solo, não for superior a 60 metros cúbicos por hectare, o que é um pressuposto igualmente muito conservador, o volume de biomassa lenhosa é 3 a 6 vezes superior aos combustíveis finos acumulados na floresta abandonada. Dito de outra forma, o volume que estará acumulado nestes 25 mil hectares corresponderá a praticamente um terço do consumo da indústria de pasta e papel de eucalipto durante um ano”.
A fileira do eucalipto como modelo de resposta
Perante a inércia do Estado, António Redondo destacou o que a Biond e os seus associados já demonstraram ser possível executar no terreno. Entre 2019 e 2023, intervieram em 110 mil hectares em cinco anos, com aumento da produtividade em mais de 20% e a redução do risco de incêndio em 3,3 vezes. A partir deste balanço lançou um desafio direto ao Governo. “Uma fração minúscula dos mais de 700 milhões de euros que se gastam anualmente no combate aos incêndios rurais, se aplicada diretamente em favor das centenas de milhares de proprietários florestais, poderia facilmente duplicar ou triplicar os resultados do esforço da Biond. Não é preciso inventar nada. Se nada se fizer, é porque nada se quis conscientemente fazer e o país, no tempo próprio, julgará essa falta de vontade”, sublinhou.
António Redondo encerrou a sua intervenção sublinhando que o problema não é de conhecimento, mas de vontade política, e apelando a uma mudança de paradigma que coloque a floresta no centro da estratégia de resiliência e soberania do país e que se passe do diagnóstico à ação. Como diz, implica “passar de um país que diagnostica exaustivamente os seus problemas para um país que os resolve com determinação no terreno e não no PowerPoint. A ação não pode continuar a ser adiada”.