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As sete lições da montanha

Alexandre Marques, médico, e Benedita Aires, advogada, que fizeram parte de um grupo de 26 alpinistas que chegou ao topo do Kilimanjaro, elaboraram as sete lições da montanha para fazer de Portugal um Kilimanjaro do crescimento económico.

Filipe S. Fernandes 25 de Novembro de 2022 às 15:00
Alexandre Marques, médico, e Benedita Aires, advogada. Bruno Colaço
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Quando o ciclismo britânico no início do milénio olhou para o passado, verificou que tinha uma medalha olímpica obtida em 1908. Convidaram David Brailsford para liderar o ciclismo britânico e quando lhe perguntaram o que iria fazer, ele respondeu: "Não trago segredo nenhum, vou tentar melhorar um por cento em cada uma das tarefas", conta Alexandre Marques, o médico fisiologista de alta performance, e que foi um dos 26 membros que subiram ao Kilimanjaro, durante a "Conversa a dois - Portugal é o próximo Kilimanjaro?", no decorrer da cerimónia de entrega de prémios do Portugal Inspirador.

Mas David Brailsford fez uma promessa: "Em cinco anos ganhámos a Volta a França." Começou por fazer coisas lógicas, como melhorar e otimizar o treino, melhorar a bicicleta com os pneus mais leves, a roupa de indoor para outdoor para ser mais aerodinâmico. Depois avançou para as condições de melhoria do sono e da alimentação. Em 2002, 2003, e 2005 ganharam a Volta a França, mas o auge foi nos Jogos Olímpicos de 2012, no Reino Unido, em que este ganhou 70% das medalhas do ciclismo indoor, disse Alexandre Marques. "É uma mensagem dos pequenos ganhos de James Clair, que foi como começámos e nos aventurámos nesta viagem de subir ao Kilimanjaro, otimizando sempre os pequenos passos", considerou Alexandre Marques. "Conquistar não é ultrapassar os outros, é subirmos à medida que avançamos", concluiu.

Alexandre Marques e Benedita Aires, advogada e partner da Vieira de Almeida, que também fez parte do grupo de alpinistas que chegou ao topo da montanha de África, elaboraram as sete lições da montanha. "São sete mensagens-chave e que têm paralelo nas nossas vidas pessoais, nas nossas vidas profissionais", disse Benedita Aires.

1. Propósito
O propósito tem de existir nas vidas pessoais, nas organizações, definir qual é o rumo, qual é o guião, a estratégia, o planeamento em torno de um propósito comum. "O nosso propósito comum era conquistar um dos sete picos das montanhas mais altas do mundo, o cúmulo do Kilimanjaro. Porquê? Porque era uma experiência única, memorável", refere Benedita Aires. Este propósito também tinha uma componente de solidariedade, com a Associação Salvador, na luta contra a desigualdade no desporto adaptado, "mas também na solidariedade para com aqueles que estão em África que também atravessaram a pandemia de covid-19", assinalou Alexandre Marques.

2. Planeamento
"O planeamento é muito importante e tem um reflexo no que fazemos no nosso dia a dia e não só num planeamento macro, mas também um planeamento mais individualizado", refere Benedita Aires. Para subir ao Kilimanjaro, que tem mais de cinco mil metros, tem de se planear o treino, tendo em conta que seria necessário subir, escalar, e que se iniciou cinco meses antes. Mas o planeamento também estava presente na seleção dos objetos para a mochila com um máximo de 15 quilos. "O que escolhêssemos iria às nossas costas", disse Alexandre Marques. Começaram a estabelecer prioridades "para fazer face às adversidades e às condições que iríamos encontrar, como as climáticas, os medicamentos para as dores, comida, porque poderia não haver comida suficiente na montanha, e levámos chocolates e barras energéticas a mais", afirmou Benedita Aires.

3. Risco
"A montanha traz-nos a lição de aprendermos a dar valor ao que dávamos por garantido", disse Benedita Aires. Chegam à montanha, vivem em tendas, dormem em colchões no chão, não existe água corrente, duches de água quente, há muita poeira e muito frio. Têm de aceitar as fragilidades e o desconhecido, testar os limites. "Vivemos o essencial no momento certo, para o momento onde estamos. É uma grande oportunidade de introspeção porque passamos muito tempo sozinhos. São seis dias em que não há outputs, em que temos de falar e conversar entre nós, não há mais ninguém ", recorda Alexandre Marques.

4. Equipa
"A equipa tem um enorme reflexo na montanha, é o esforço da equipa, é o coletivo, que nos leva ao topo da montanha, e o paralelo com as nossas vidas empresariais é muito evidente, não só os nossos colaboradores, as nossas pessoas a trabalhar connosco diretamente, as contrapartes, os nossos clientes, os nossos stakeholders, a atuação como coletivo tem um potencial de sucesso muito maior e isso é uma lição muito grande que trazemos", refere Benedita Aires. Na equipa foi importante a liderança, sobretudo na ascensão da montanha, pois tinha de definir a estratégia, assegurar a coesão do grupo, a confiança, a segurança. Benedita Aires sublinhou a capacidade de se tomarem decisões em benefício do coletivo como aconteceu quando, antes da última etapa para chegar ao topo, um alpinista, que não se sentia em condições, decidiu não continuar.

5. Consistência
O arranque para o cume do vulcão deu-se às 23:30, e sobe-se de noite para não se ver a inclinação e segurança porque, se subissem de dia, arriscavam-se a permanecer no topo durante a noite. São 12 a 14 horas de subida com 12 graus negativos, passo em passo num esforço continuado e consistente para atingir o objetivo. "A consistência é muito melhor do que a intensidade. A base para se vencer é a consistência no passo a passo, nas pequenas coisas, e foi a consistência que nos levou ao topo", referiu Alexandre Marques.

6. Humildade
Há várias maneiras de olhar para a humildade, mas nesta expedição todos valiam o mesmo, feitos do mesmo pó local, com as mesmas dificuldades, são ajudados por pessoas que estão habituadas a subir 25 a 30 vezes por ano, que estenderam a mão, cantaram as suas canções. "A chegada aqui é feita porque há um conjunto de carregadores e de guias que nos levam a mochila às costas quando nós não podemos com mais um grama, nos tiram a mochila e nos levam, ou se percebem que vamos desmaiar vão buscar um chá para nos ajudar. A humildade de contar com os outros à nossa volta e a humildade de aceitar este passo a passo para chegar ao topo, de aceitar o que a montanha noz traz, o que a vida nos dá", contou Benedita Aires.

7. Oportunidade
O grupo de 25 alpinistas chegou aos cinco mil e oitocentos a 25 de outubro de 2022 às oito da manhã. É um momento de realização, de superação, um momento verdadeiramente transformacional. "É a oportunidade de um novo caminho que se abre, de uma abertura de portas do próximo objetivo e para tantas coisas que se definem e que vamos fazer na nossa vida. Hoje sabemos que o fim é o princípio de muitas outras coisas", concluiu Benedita Aires.
"É uma oportunidade de aprendizagem, das lições que levamos, das dificuldades de ultrapassamos, e que é possível ultrapassar e, transpondo isto para a nossa vida pessoal, empresarial, as dificuldades vão aparecer, é uma garantia", considera Alexandre Marques.

Lição final
"Fazermos de Portugal o próximo Kilimanjaro passa pela intervenção e a ajuda de todos, passo a passo no meio da humildade, do planeamento e do risco, sair da zona de conforto para chegar mais longe no tempo que tiver de ser. Não interessa correr a maratona, mas transformar-se num corredor, porque o corredor vai correr mais do que uma só maratona", resume Alexandre Marques.