A teoria da conspiração
Se os Estados Unidos são o país das teorias da conspiração, Portugal resigna-se a ser a própria conspiração enquanto país. De vez em quando descobre-se um escândalo qualquer e, no burgo, debate-se tudo menos o objecto do problema. Sussurra-se a quem interessou, insinua-se quem esteve por detrás, avançam-se hipóteses sobre o que se pretendia. Criam-se assim um conjunto de conspirações sobre a conspiração. O resultado é que rapidamente todos esqueceram qual era o tema inicial da conspiração. O desfecho é o normal: nos EUA, Madoff vai ver o sol aos quadradinhos, em Portugal a justiça passa por entre as grades. O caso Freeport, como se sabe, já se tornou num delta. É por isso que muito do que será o futuro dessa investigação vai ficar definida pelos resultados práticos do relatório sobre as eventuais pressões de Lopes da Mota sobre os procuradores encarregados da investigação. Até porque, independentemente do que possa ter feito, ou não, e do que possa acontecer ao presidente do Eurojust, há aqui uma clara carga política. Esta é chuva ácida que o ministro Alberto Costa não pode sacudir para o lado. Esta chuva queima. E, no limite, atinge-o directamente. Especialmente num caso sensível que, para bem da credibilidade da justiça portuguesa, deveria ser investigado de forma célere. E sem demasiadas teorias da conspiração por perto. A partir de agora é que vai perceber-se se a teoria da conspiração, em Portugal, é uma constipação. Espirra-se e os vírus espalham-se. E nunca ninguém os volta a apanhar.
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