José Cutileiro 16 de Outubro de 2012 às 23:30

Males dos outros (para variar)

No tempo das vacas gordas, a União Europeia ajudava tudo quanto era "região" a armar ao pingarelho sem que daí viesse mal ao mundo. Em tempo de vacas magras, o sentimento contra estranhos é mais forte e aparecem entusiastas do separatismo, tribunícios e atrabiliários

O político flamengo Bart De Wever foi eleito no domingo presidente da Câmara de Antuérpia por grande maioria. Tomada a principal cidade da Flandres, diz-se que daqui a dois anos o partido ganhará a Flandres inteira e se tornará no maior partido da Bélgica, país inventado por Londres depois das guerras napoleónicas para servir de tampão entre a Europa Continental e a Grã-Bretanha, a fim de desencorajar invasões; a União Europeia veio roubar-lhe a importância estratégica.

Bart De Wever é um patriota flamengo. Para ele, a Bélgica é invenção absurda e opressiva cuja fiscalidade obriga os seus seis milhões de compatriotas a pagarem pela preguiça dos cinco milhões de valões do sul do país. (Espécie de microcosmo da Europa dos triplos A’s e da austeridade, salvo que não se fala de ética protestante: flamengos neerlandofones do Norte e valões francofones do Sul são todos católicos). Há um Rei dos belgas – não da Bélgica –, até ao euro havia uma moeda nacional e há por fim Bruxelas, tão "sui generis" quanto as instituições europeias que alberga e que até hoje não encontrou cabeça capaz de inventar como a dividir em duas. Porque o partido de De Wever é republicano e o franco belga deixou de existir, Bruxelas é a última defesa da independência da Bélgica contra a vontade flamenga de se ver livre dela. (Vontade antiga que encontrei pela primeira vez em 1979 quando era embaixador no Conselho da Europa em Estrasburgo. O meu colega belga, rubicundo e galhofeiro como uma quermesse, perguntou-me: "Sabes o que é a poluição? Um valão no Rio Meuse. E a solução? Todos os valões no Rio Meuse").

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Em Espanha, o País Basco (mordendo também terras de França) e a Catalunha, cada um no seu estilo próprio, aspiram como os flamengos à independência. Sob o nome de Padania, muita gente do norte de Itália, gostaria também de se separar do resto do país, sobretudo do "mezzogiorno" empobrecido e criminalizado, e um grande partido, a Liga do Norte, dá expressão política a esse anelo. A Escócia (única destas nações que é mais pobre do que o estado de que se quer separar) vai realizar em 2014 um referendo para saber se afinal quer ou não quer deixar o Reino Unido. E há mais casos. No tempo das vacas gordas, a União Europeia ajudava tudo quanto era "região" a armar ao pingarelho sem que daí viesse mal ao mundo. Em tempo de vacas magras, o sentimento contra estranhos é mais forte e aparecem entusiastas do separatismo, tribunícios e atrabiliários.

Desmantelar países, porém, é caro, é difícil, é penoso e quase sempre sangrento; "divórcios de veludo" como o que partiu a Checoslováquia ao meio não acontecem todos os dias. Habituados a 60 anos de paz e à vida com "room service" – telefona-se e trazem ao quarto –, bem comidos e bem dormidos, os europeus de hoje não tem estômago para essas coisas. Autonomias, vá que não vá. Mas entre Bruxelas-Corte (ou Madrid ou Roma ou Londres ) e Bruxelas-Europa, porque iriam escolher o Diabo que conhecem pior?

Embaixador

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