José  Cutileiro
José Cutileiro 14 de novembro de 2013 às 00:01

Mediocridade

As últimas críticas à Alemanha por não tomar medidas que aumentem a procura e ajudem a equilibrar Norte e Sul da Europa não vêm das extremas-esquerdas do costume, mas do Tesouro americano e até do próprio Presidente da Comissão Europeia.

O curso dos liceus faz muita falta, suspira de vez em quando um amigo meu, conservador e snob, desde o dia em que descobriu que um dos nossos chefes políticos, propulsado para o poder pela vertente tecnocrática e mais à vontade com logaritmos do que com declinações, estava convencido de que os reis espanhóis de Portugal, entre 1580 e 1640, haviam sido dois e não três. Para quem aprendeu História como o meu amigo e eu (711, Batalha de Guadalete; 732, Batalha de Covadonga… D. Afonso Henriques, o Conquistador; D. Sancho I, o Povoador; D. Afonso II, o Gordo…), dois Filipes em vez de três caiem na alma como uma abominação do Levítico. 


Mas sabedoria de velhos - "no nosso tempo o céu era mais azul e as cabeças dos bois eram maiores" – não dá para mandar cantar um cego, quanto mais 9 milhões deles e a rapaziada – e raparigada – que há por aí agora, com algoritmos na cabeça e olho cravado no futuro, mesmo que não saiba História, nem gramática, nem maneiras, vai tirar-nos do buraco. Não, como julgou, enquanto o Diabo esfrega um olho, mas se a nação valente e imortal continuar a acompanhá-los pelo inferno intermédio, talvez emulando Ceaucescu que libertou a Roménia da dívida externa.

Com variações de carisma de quem reger o circo - algum carisma traria alguma anestesia - não há infelizmente por agora outro itinerário a seguir. Para quem, desde 2010, sempre haja recusado explicar a crise por abusos da gente perdulária do Sul contra boas contas da gente virtuosa do Norte - tese alemã que triunfou, sustentada por economistas obstinados e por políticos e burocratas com medo da Alemanha -, mas sim por fluxos irreflectidos de crédito transfronteiriço, com culpas tanto a Norte quanto a Sul, o marasmo do Sul do Continente imposto deliberadamente pela austeridade é absurdo: se a doença não matou, o tratamento matará.

Resta uma esperança. As últimas críticas à Alemanha por não tomar medidas que aumentem a procura e ajudem a equilibrar Norte e Sul da Europa não vêm das extremas-esquerdas do costume, mas do Tesouro americano e até do próprio Presidente da Comissão Europeia. Alguns altos funcionários alemães responderam indignados que não percebem tais críticas – a mediocridade perigosamente provinciana da primeira potência económica da União assusta -, mas a Chanceler tê-las-á arrumado na cabeça à espera de momento em que lhe convenha dar-lhes alguma razão, pouca e tarde demais, se nos guiarmos pela experiência dos últimos anos.

Mas o ambiente mudou. Por um lado, mau grado NSA & Companhia, Berlim dá mais ouvidos aos Estados Unidos do que a esquerdistas de Salónica ou da Amadora (ou de Paris…) e os reparos da Comissão sublinham que os europeus, ricos e pobres, do Norte e do Sul, estão todos metidos no mesmo saco. Por outro lado, a iminência de coligação de governo com o SPD aprofunda a conversa em Berlim e talvez alguém lá se lembre agora que a deflação de 1930-1932 ajudou a destruir a República de Weimar. Oxalá.

Embaixador

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