Ormuz: quando a geografia desafia o direito internacional
Num mundo ainda profundamente interdependente, o que está em causa não é apenas a estabilidade de um estreito, mas a confiança na liberdade de circulação marítima enquanto princípio estruturante da ordem internacional.
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Durante demasiado tempo, consolidou-se a ideia de que a globalização, a digitalização e a interdependência económica teriam reduzido o peso da geografia nas dinâmicas internacionais. No fim dos anos 90, Philippe Defarges chegou mesmo a teorizar sobre o fim das fronteiras na nossa aldeia global, tal como as conhecíamos. Hoje, porém, percebe-se que esta leitura foi precipitada. A realidade contemporânea continua a demonstrar que os mapas, com as suas fronteiras, estreitos e corredores estratégicos, permanecem centrais para compreender o funcionamento do sistema internacional. O estreito de Ormuz é hoje um dos exemplos mais claros dessa realidade, afirmando-se como um espaço onde geografia, direito internacional e economia se cruzam de forma particularmente sensível. Ligando o golfo Pérsico ao mar Arábico, Ormuz continua a ser uma das principais artérias energéticas do mundo. Por este estreito circula cerca de um quinto do petróleo consumido globalmente, o que lhe confere uma relevância que ultrapassa largamente a escala regional. Qualquer perturbação na sua navegabilidade repercute-se de imediato nos mercados energéticos, nos custos do transporte marítimo e, por consequência, nas perspetivas de inflação e crescimento económico à escala internacional.
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