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António Moita 07 de Junho de 2020 às 18:45

António Costa (e Silva)

Para introduzir sangue novo na equação era preciso alguém vindo de fora e que não fizesse parte dos grupos de interesses que habitualmente povoam os corredores dos ministérios.

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António Costa e Silva passou a ser o tema da discussão política nos últimos dias. Não pela sua visão, experiência ou qualidade técnica sobejamente reconhecida, mas apenas porque estava a trabalhar quase em segredo para o primeiro-ministro e quase iria mandar nos restantes ministros. Iria ainda, vejam só o desplante, negociar diretamente com os partidos da oposição. Pois é precisamente este o grande mal da política portuguesa. Ninguém apareceu a contestar alguma ideia ou posição assumida pelo novo conselheiro de António Costa, rebatendo-as ou apresentando alternativas. Mas todos se vieram pronunciar sobre o método de escolha e sobre o futuro desta personalidade no quadro de uma remodelação governamental. Depois queixam-se quando assistem a uma subida de popularidade do chefe do Governo.

O atual Governo começou esta legislatura sem nenhuma certeza de durar muito. Apesar de o PS ter saído reforçado das últimas eleições, a verdade é que o tão célebre quanto distante acordo da “geringonça” tinha deixado de fazer sentido neste novo ciclo político. António Costa preparou assim um governo composto por diferentes personalidades representativas de distintas maneiras de ver o país e o seu modelo de desenvolvimento. Estava assim preparado para ir agradando a uns e a outros consoante as circunstâncias o justificassem. Preferencialmente à esquerda, mas sem nunca enjeitar o apoio pontual, mas muito útil de Rui Rio se fosse preciso. Verdadeiramente não existia um programa de governo para a legislatura ou um desígnio para cumprir. O objetivo era o de se manter à tona até que alguém o fizesse cair e nessa altura chegar à maioria absoluta.

A pandemia veio mudar tudo. A oposição ficou presa à obrigação de apoiar o Governo e o horizonte temporal da governação, tal a dimensão da crise contra a qual iremos lutar, é agora o da legislatura. António Costa terá percebido que a construção do futuro próximo passa por um novo modelo de desenvolvimento alicerçado nas empresas e na inovação e na preparação de um novo papel para o Estado em que regulação, complementaridade, incentivo e proteção social sejam os pontos cardeais de uma bússola que andou perdida. Mas para introduzir sangue novo na equação era preciso alguém vindo de fora e que não fizesse parte dos grupos de interesses que habitualmente povoam os corredores dos ministérios. Também não era possível recorrer a nenhum ministro em funções sob pena de desequilibrar em definitivo a balança de António Costa. Até porque, quando falamos sobre uma visão estratégica para o país, será difícil encontrar um ministro que pense o mesmo que o outro. O recurso a consultores qualificados é uma prática comum entre nós. Quem não se lembra, entre outros, do relatório já com mais de 25 anos de Michael Porter sobre a competitividade da economia encomendado por Cavaco Silva ou, mais recentemente, o convite de Passos Coelho a António Borges para coordenar uma agenda de transformações estruturais da nossa economia.

 

O papel de António Costa e Silva é o de assinalar com pragmatismo o caminho para uma recuperação económica a concretizar ao longo da década.



Estamos hoje num momento de viragem e a oportunidade que as novas injeções de fundos europeus nos traz terá de ser bem aproveitada, corrigindo assim deficiências crónicas de competitividade das empresas e de organização do Estado. E isso permitirá a António Costa deixar uma marca numa transformação que é inevitável e que o país maioritariamente aceita e compreende. O papel de António Costa e Silva é o de assinalar com pragmatismo o caminho para uma recuperação económica a concretizar ao longo da década. Será muito difícil à oposição, especialmente aos que não se constituem como partidos de protesto, negar a evidência, a importância, a sensatez e a urgência deste plano. António Costa será o garante da sua aplicação. Em política não há coincidências. Neste caso nem o nome dos envolvidos é apenas uma feliz coincidência.

 

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