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Carlos Almeida Andrade 28 de Abril de 2016 às 21:25

Porque é o crescimento económico tão baixo?

Como as recentes previsões do FMI vieram lembrar, as principais economias "avançadas" continuam a exibir taxas de crescimento muito contidas. Em 2016, a economia dos EUA não deverá crescer mais do que 2%.

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Para a Zona Euro, a expectativa é de um crescimento em torno de 1,5%. Estes são crescimentos baixos por padrões históricos. Uma das explicações para este fenómeno parte de uma questão intrigante: com os juros próximos de zero ou negativos, porque não se observa um crescimento maior do investimento real na economia? Juros baixos deveriam incentivar os investidores a procurarem, na economia real, retornos mais elevados e mais atractivos, mas isto não tem acontecido. Para alguns economistas, isto é explicado pelo facto de a taxa de juro real de equilíbrio - em termos simplificados, o nível dos juros que levaria os investidores a considerar racional financiarem-se para investirem na economia - se encontrar, actualmente, em níveis ainda mais baixos, possivelmente entre -2% e -3%. Ora, por muito baixos que sejam hoje os juros efectivos (por exemplo, a taxa de juro real da dívida pública alemã a 10 anos evolui em torno de 0,3%), estes são ainda muito superiores a -2% ou a -3% (o retorno real gerado pelo investimento na economia). Daqui resulta um óbvio desincentivo ao investimento, porque os retornos reais obtidos pelos investidores são inferiores aos seus custos de financiamento. Para os defensores desta explicação, o actual baixo crescimento é, assim, explicado pela falta de investimento, que se vai traduzindo numa deterioração do crescimento potencial das economias. As implicações de política seriam óbvias: perante uma insuficiência da procura agregada, os governos deveriam gastar dinheiro no âmbito de políticas orçamentais expansionistas. E os bancos centrais deveriam manter ou, até, aprofundar a natureza expansionista das políticas monetárias.

 

Embora esta seja uma explicação apelativa, é possível ter outras perspectivas para este problema. Logo à partida, existem outras razões para um baixo crescimento potencial das economias, além de falta de procura agregada: uma demografia adversa (poucos nascimentos, envelhecimento da população), níveis elevados de endividamento, instituições esclerosadas, mercados pouco abertos, maior atractividade do investimento em economias emergentes, o desemprego associado à transição para uma actividade produtiva mais digitalizada e automatizada, etc. Lançar simplesmente mais dinheiro nas economias não resolve estes problemas. Por outro lado, persistir em juros nulos ou negativos pode, como se viu já, ajudar a criação de "bolhas" em diversos activos (acções, dívida, habitação, etc.), perpetuando o risco de instabilidade financeira. Ao mesmo tempo, a criação artificial de um ambiente de juros muito baixos facilita o financiamento de projectos pouco produtivos, que contribuem para a diminuição do crescimento potencial e efectivo das economias. Isto é, facilita uma afectação deficiente dos recursos e desincentiva a realização de reformas estruturais, penalizando a produtividade e permitindo o endividamento excessivo dos agentes económicos. Nesta perspectiva, políticas monetárias e orçamentais demasiado expansionistas por demasiado tempo acabam por ter efeitos nocivos, sendo preferível agir sobre factores estruturais do lado da oferta. Este debate deverá manter-se vivo nos próximos tempos.

 

Economista 

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