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Cristina Casalinho 16 de Setembro de 2016 às 00:01

Benção ou maldição

A condução da política monetária enveredou por territórios inexplorados: consideráveis programas de compra de ativos e taxas de juro negativas, suscitando alguma polémica. A experiência de taxas de juro negativas tem-se estendido a vários países com destaque para a Europa.

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Com efeito, além da área do euro, as taxas de juro quebraram a linha do zero na Suíça, Suécia, Dinamarca, Bulgária e Hungria. Entretanto, enquanto o presidente do BCE ou o governador do Banco do Japão saúdam as vantagens deste instrumento, a presidente da Reserva Federal ou o governador do Banco de Inglaterra assumem o seu ceticismo.

 

Os detratores de instrumentos não-convencionais esgrimem como principal argumento a incapacidade de promoção de crescimento ou aceleração da inflação. Por seu turno, os defensores destas medidas alertam para a inevitabilidade de repressão financeira num contexto de elevado endividamento e baixo crescimento nominal. Ambos concedem que taxas de juro negativas atuam como um imposto sobre a poupança, criando estímulo ao crescimento ao empurrar famílias para consumo, facilitando as condições de acesso ao crédito e, por conseguinte, promovendo o investimento (que entretanto também beneficia de melhores perspetivas de procura). O sucesso desta política é variável, dependendo das idiossincrasias de cada país. Se existe um balanço positivo nos países nórdicos, no Japão os resultados são menos encorajadores.

 

O seu grau de sucesso está associado ao nível de endividamento, ao desenvolvimento do sistema financeiro, à abertura da economia, ao sistema de Segurança Social, entre outros. Os particulares beneficiam da queda das taxas de juro nas suas dívidas, mas podem ser penalizados nas suas expectativas de rendimento na reforma, porque os fundos de pensões não conseguirão cumprir as promessas de rendibilidade ou porque pagam juros aos bancos. Quando a poupança é primordialmente canalizada para depósitos, os bancos terão maior dificuldade em evitar o esmagamento da margem financeira, porque não se arriscam a repassar para os depositantes as taxas de juro negativas, embora possam tentar compensar essa incapacidade pela cobrança de comissões. Regimes de Segurança Social dominados por esquemas privados de capitalização e contributo definido expõem os seus futuros pensionistas a mais risco em caso de persistência de taxas de juro negativas, por incapacidade de geração de retorno das carteiras, que esquemas públicos de repartição com benefício definido. Estes últimos, aliás, são favorecidos por políticas monetárias mais expansionistas, indutoras de emprego. Um dos canais de transmissão mais eficazes é o enfraquecimento da moeda local, impulsionando exportações com efeito de contágio à restante atividade económica. Outro elemento determinante do sucesso é o grau de recurso à moeda física: em mercados em que a moeda física é dominante ou mercados em que esta é inexistente (apenas transferências eletrónicas), consegue-se ultrapassar melhor os custos das taxas de juro negativas.

 

No caso de os bancos centrais não conseguirem eliminar a moeda física, as taxas de juro negativas podem induzir uma deriva no sentido do regresso do poder da moeda física e da preferência por ativos reais. Tal evolução pode colocar em causa o mundo financeiro e as trocas internacionais como as conhecemos, conferindo algum risco de retrocesso na globalização por retorno à autarcia. Contudo, fomenta o financiamento por capitais próprios e geração de meios internos, limitando o endividamento - crescimento mais lento [e mais sólido (?)].

Economista

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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