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Cláudia de Castro Caldeirinha 07 de Março de 2019 às 21:05

Dinossauros do século XXI

Pessoalmente, continuo grata por todas aquelas que vieram antes de nós – as mulheres que fizeram enormes sacrifícios para exigir direitos humanos básicos, e os homens corajosos e visionários que as apoiaram.

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Mais um dia da Mulher, mais um mar de retórica e de chavões inundam os discursos dos homens de Poder que dominam Portugal.

Há quatro séculos que uma mulher inglesa, Elizabeth I, liderou as suas tropas em Tilbury e derrotou uma Armada "invencível" de homens latinos. Há 100 anos que avançamos, a passo de caracol, num penoso processo para conseguir direitos e oportunidades para 50% da população mundial. Há 40 anos que Portugal viu uma mulher – a única até hoje! – aceder à posição de primeira-ministra. 40 anos!

 

Sem dúvida, percorremos um grande caminho nos últimos séculos. As nossas vidas hoje – nas sociedades ocidentais privilegiadas em que vivemos – são muito diferentes das vidas que tiveram as nossas avós. Pessoalmente, continuo grata por todas aquelas que vieram antes de nós – as mulheres que fizeram enormes sacrifícios para exigir direitos humanos básicos, e os homens corajosos e visionários que as apoiaram. Estas pessoas corajosas que abriram o caminho para podermos hoje desfrutar de direitos que quase consideramos garantidos: o voto, o divórcio, uma conta no banco... No entanto, como todas (e todos?!) sabemos, a igualdade entre homens e mulheres continua a ser um assunto totalmente inacabado. Continuamos a nadar arduamente contra a corrente para sermos realmente aceites como cidadãs com direitos e oportunidades iguais. Em Portugal, a maioria das mulheres está cansada, infeliz e é mais mal-paga do que o companheiro. Continua a fazer mais de metade das tarefas em casa, e gostaria de ter melhor sexo, conclui o recente estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

 

Continuamos a fazer face a um sexismo milenar profundamente enraizado nos hábitos, costumes e mentalidades de homens e mulheres. Continuamos a ser divididas entre "feministas agressivas" e "boas mães de família"; a ser vitimas de misóginos em posições de poder, em vez de ser defendidas pelo que deveria ser um Estado de Direito que garante princípios fundamentais da dignidade humana; e continuamos a ter de ouvir chavões e imbecilidades sobre as pseudo-qualidades de homens (racionais, eficazes) e mulheres (emocionais, imprevisíveis).

 

Mas como é que ainda alguém pensa assim? Não chega olhar para mulheres racionais como Angela Merkel ou para homens imprevisíveis como Trump para compreender que existem tantas diferenças dentro de cada sexo, como entre sexos? Que as mulheres, como os homens, não vêm em caixinhas monolíticas e estandardizadas com rótulos simplistas?

 

Estas mentalidades anacrónicas refletem o mundo que FOI e não o mundo que É. E, no mundo de hoje, que se move a uma velocidade vertiginosa, já não há espaço para dinossaur@s. Hoje vivemos em três séculos ao mesmo tempo: temos instituições, regras e mentalidades do século XIX e XX, que ainda não se conseguiram adaptar ao novo "normal", ao mesmo tempo que temos realidades, necessidades e desenvolvimento tecnológico do século XXI: inteligência artificial, automação, genética, etc.

 

Vivemos num mundo que me faz pensar nos velhos mapas medievais: um novo mundo feito de territórios desconhecidos, fascínio e assombros. Este é um momento histórico em que velhas certezas e equilíbrios profundos se dissolvem e novos equilíbrios ainda não são uma realidade. É natural haver resistência à mudança nestes momentos. Mas são estes momentos que definem os líderes e os precursores de todas as sociedades até hoje.

 

Tod@s nós temos hoje a opção das nossas decisões: queremos ficar no passado ou acompanhar a fascinante realidade volátil, imprevisível, complexa, ambígua e interdependente do mundo de hoje? Uma realidade onde existem mulheres que todos os dias demonstram que podem ter a mesma competência ou incompetência que os homens. E onde nenhum género tem o monopólio de ser "bom/boa" ou "má/mau" profissional, líder, educador/a, etc.

 

Temos a opção de aprender com as décadas de "business cases" pelas principais universidades do mundo (Harvard, Standford, Cambridge) e por fontes mundialmente reconhecidas (World Economic Forum, McKinsey, Catalyst, etc) que demonstram como o equilíbrio de género é crucial para podermos enfrentar os enormes desafios que temos pela frente – empresas, Estados, instituições, etc. – em Portugal e no mundo.

 

Temos a opção de honrar o esforço feito pelas famílias das 60% das pessoas licenciadas na EU que são mulheres. Estas mulheres são o maior "talento pool" da Europa e de Portugal, a maior "piscina de talentos" (i.e. o grupo de pessoas qualificadas e prontas para integrar o mercado de trabalho). Gestoras, programadoras, engenheiras, cientistas, historiadoras, politólogas, médicas, professoras, desportistas, empreendedoras, etc.

 

Temos a opção de ver com olhos abertos uma realidade onde jovens mulheres como Malala, Greta Thunberg ou Emma Watson mobilizam o mundo. E onde mulheres de todas as idades e continentes fazem parte das notícias de todos os dias: as lutas da líder democrata americana Nancy Pelosi; a nova geração de mulheres senadoras americanas; a lufada de ar fresco trazida pela mais jovem primeira-ministra do mundo, a neozelandesa Jacinda Ardern; o exemplo de princesas pós-modernas como Meghan Markle ou de Elizabeth Diller, a única arquiteta na lista das 100 pessoas mais influentes da revista Time em 2018. E tantas, tantas outras, mais ou menos famosas que todos os dias mudam o mundo, pouco a pouco...

 

Temos a opção de bloquear ou de co-criar uma realidade feita de pessoas – homens e mulheres – que podem escolher livremente como desenvolver os seus talentos e que papel querem ter na sociedade. De pessoas que podem combinar progresso profissional e projetos familiares. De pessoas que se podem libertar das velhas "caixinhas" de género monolíticas, e do peso de milhares de anos de patriarcado, de papéis e comportamentos estereotipados, transmitidos individual e coletivamente. De pessoas – homens e mulheres – que possam contribuir com as suas aptidões para que as nossas empresas, sociedades e países se possam preparar, adaptar e sobreviver coletivamente no século XXI.

 

Enquanto lideres, temos a opção de agir com visão e coragem; de aprender, compreender e promover um paradigma de pensamento e de Poder que permita incluir todas as pessoas; de ser inclusivos para além da retórica, com uma verdadeira mentalidade de crescimento e a capacidade de liderar este novo mundo digital, onde os talentos de tod@s são essenciais.

 

Isto quer dizer sermos líderes a sério – e não pseudo-feministas que fazem piadinhas sexistas às escondidas; que fecham os olhos (ou desculpabilizam) misoginia, discriminação e sexismo latentes; que falam de igualdade, mas nunca promovem mulheres para posições de topo; nem partilharam tarefas familiares ou domésticas, na esfera privada; que fazem discursos bonitos, mas continuam incompetentes no mostrar resultados tangíveis.

 

Temos assim, homens e mulheres, duas opções: ser parte do mundo que progride e avança; ou resistir à mudança, como dinossauros anacrónicos, fechados ao potencial admirável de uma sociedade onde todas as Pessoas podem participar de facto.

 

A escolha é sua...

 

Professora de Liderança, conferencista e autora

www.linkedin.com/in/claudia-decastro-caldeirinha-0bb4141b @ClaudiadeCast13

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