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Kadri Simson 14 de Outubro de 2020 às 19:00

Melhores casas, menos despesa, planeta mais verde

O novo fundo de recuperação “NextGenerationEU” e o próximo orçamento de longo prazo da UE disponibilizarão centenas de milhares de milhões de euros que os Estados-membros podem investir na transição verde, incluindo a renovação. Aproveitemos esta oportunidade para investir onde é necessário.

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Este ano, muitos de nós passaram mais tempo em casa do que é habitual. Obviamente, as casas são sempre importantes, mas quando lá temos de ficar durante dias, semanas ou meses, torna-se particularmente claro o seu impacto na nossa qualidade de vida. É demasiado quente? Demasiado fria? O ar está seco? Ou está húmido? E as contas, são assustadoras?

Os edifícios são importantes apenas para nós, mas também são cruciais para o futuro do planeta. Quando pensamos nas alterações climáticas e nas emissões de carbono, temos tendência a pensar nas plataformas petrolíferas, nas minas de carvão e nos automóveis poluentes. Muitas vezes não estamos conscientes de que 40% da energia é consumida nos edifícios, razão pela qual geram 36% dos gases com efeito de estufa na União Europeia. Tal deve-se principalmente ao aquecimento e arrefecimento, que utilizam frequentemente combustíveis fósseis e equipamento antigo e ineficiente. Mesmo num Estado-membro como Portugal, onde as necessidades de aquecimento e refrigeração são menores, o peso dos edifícios no consumo de energia é muito significativo e é cerca de 30%.

Assim, se quisermos mesmo atingir a neutralidade climática até 2050 — e queremos — é inevitável centrarmo-nos nos edifícios. A maioria das casas na Europa tem mais de 20 anos e cerca de 85% continuarão de pé em meados deste século. Isto significa que para alcançarmos um futuro verde e ecológico, temos de descarbonizar os edifícios já existentes.

Para que tal aconteça, a Comissão Europeia apresentou esta semana a “vaga de renovação”, o nosso plano para duplicar a taxa de renovação na UE e renovar 35 milhões de edifícios até 2030. O nosso objetivo é facilitar a renovação dos edifícios através da eliminação dos atuais obstáculos — sejam eles legislativos, administrativos ou financeiros. A tónica incidirá na melhoria ecológica do aquecimento e da refrigeração, na melhoria das habitações com pior desempenho, na redução da pobreza energética e ainda na renovação dos edifícios públicos. Acreditamos que as residências, as escolas e os hospitais devem estar em primeiro lugar.

Queremos incentivar a melhoria da eficiência energética e da sustentabilidade dos nossos edifícios: através de um melhor isolamento, da substituição das janelas e da utilização de energias renováveis produzidas localmente — por exemplo, através de bombas de calor, painéis solares nos telhados ou soluções inovadoras recentes, como a integração de painéis fotossensíveis nos edifícios.

Estas ações têm dois benefícios adicionais, particularmente importantes numa altura em que enfrentamos o impacto económico da pandemia.

Em primeiro lugar, quanto mais eficiente o edifício, menor será a fatura energética. Uma renovação adequada pode reduzir até 75% das despesas dos agregados familiares com a energia. Isto é bom para todos, tendo em conta os tempos difíceis, mas principalmente para os 34 milhões de europeus que têm dificuldade em manter as suas casas suficientemente quentes ou frescas.

Em segundo lugar, as obras de renovação são grandes utilizadoras de mão de obra e podem impulsionar a economia e criar emprego, em especial nas pequenas e médias empresas locais. A análise da Agência Internacional da Energia mostra que 60% do dinheiro gasto em renovações acabará como salário de trabalhadores dos setores da construção ou dos materiais. Se a estratégia for corretamente implementada, estimamos que serão criados mais 160.000 postos de trabalho “verdes” no setor da construção na UE até 2030.

Portugal é um dos países em que o potencial de renovação de edifícios é significativo. Dois terços das habitações foram construídos antes da introdução de quaisquer requisitos de eficiência energética. Cerca de dois milhões de pessoas — um quinto da população do país — vivem em situação de pobreza energética. Estima-se que mais de 90 % das habitações sejam desconfortáveis: frias durante o inverno e demasiado quentes no verão. Este problema pode ser resolvido através da renovação.

Com o seu excelente desempenho no que se refere à produção de energias renováveis e, em especial, ao potencial das tecnologias solares, Portugal pode realizar progressos rápidos e notáveis graças ao aproveitamento destas fontes de energia ecológicas e locais. Tal permitiria melhorar o bem-estar e a saúde das pessoas, tornar as obras de renovação mais eficientes em termos de custos e impulsionar os setores da construção e das energias limpas.

É com grande satisfação que vejo que a renovação dos edifícios já ocupa um lugar de destaque no plano de recuperação de Portugal. E a Europa pode ajudar a fazer mais. O novo fundo de recuperação “NextGenerationEU” e o próximo orçamento de longo prazo da UE disponibilizarão centenas de milhares de milhões de euros que os Estados-membros podem investir na transição verde, incluindo a renovação. Aproveitemos esta oportunidade para investir onde é necessário.

 

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