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Cristina Simon - Professora RRHH em IE Business School
20 de Julho de 2016 às 19:55

Pode a função de recursos humanos ser transparente?

Um dos maiores impactos sociais que a tecnologia causou foi a ilusão generalizada de que os cidadãos têm direito à transparência em todo o tipo de informação.

E digo "ilusão" porque, do meu ponto de vista, não é claro que a transparência total seja necessária - nem sequer boa - em muitos casos. O certo é que o mundo internet gera esta percepção e não apenas pelos casos sonantes como o do Wikileaks, senão pela facilidade com a qual toda a gente pode aceder a grandes quantidades de informação e opinar sobre ela em múltiplos fóruns de forma completamente aberta.

Esta procura de transparência transportou-se a diversos âmbitos do trabalho e, em concreto, às áreas de recursos humanos, que soma pontos à visão já geralmente negativa que os colaboradores têm desta função. A minha perspectiva é de que a gestão de pessoas enfrenta importantes barreiras para poder ser realmente transparente. Certamente a política que mais debate gera neste sentido é a compensação. Têm de ser os salários conhecidos por toda a gente? Evidentemente, não. E porquê? Pois porque, em sentido restrito, os sistemas de compensação não são justos ou antes não cumprem os critérios de justiça que podem esperar muitos colaboradores. Para começar, as empresas crescem desde o início de uma forma muito orgânica, vão-se adaptando a múltiplas circunstâncias do contexto e do negócio. A importância dos postos muda com o tempo, mas uma boa parte dos salários é consolidada e difícil de mudar. Por outro lado, as empresas favorecem cada vez mais o critério de mercado em vez da tradicional igualdade interna. Todas estas são decisões que os colaboradores dificilmente entenderiam se fossem comunicadas de forma absolutamente transparente. E poderemos juntar argumentos parecidos para outras práticas tais como a promoção ou a selecção.

O problema subjacente à transparência nas decisões de pessoas é a enorme disparidade de critérios que existem. Cada pessoa tem a sua própria forma de ver o mundo (que geralmente é favorável aos seus próprios interesses, como é lógico). E com isto não pretendo defender muitas das decisões que se tomam tanto a partir dos níveis de gestão como a partir das áreas de recursos humanos, pois também as haverá totalmente injustas certamente. Mas, em geral, os recursos da empresa são um jogo de soma zero: para que alguns ganhem outros têm de perder ou ficar como estão. Impossível ganhar o consenso que seria requerido para adoptar esta moderna tendência da transparência.

Mas, sim, as empresas deveriam comprometer-se em ser transparentes quanto aos critérios gerais que são seguidos, ou seja, quanto às regras do jogo. Mas frequentemente concluímos que não só não há comunicação aberta, como as mensagens que se enviam são inconsistentes. E os seres humanos são extremamente sensíveis às inconsistências, poucas coisas contribuem mais para a perda de credibilidade da empresa e dos seus líderes. Tornar públicos estes critérios básicos na gestão de pessoas forçaria os executivos a adoptar posições claras e a manter a coerência nas decisões diárias, com o que os colaboradores já teriam ganho muito sem necessidade de tornar públicos grandes detalhes.

Professora RRHH em IE Business School

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