Eduardo Cintra Torres
Eduardo Cintra Torres 03 de fevereiro de 2016 às 20:20

[646.] Mini, Renault, Hyundai, Jaguar

Não seria melhor para as marcas os publicitários de automóveis prescindirem de frases moralistas e sem ligação ao produto anunciado?

O anúncio do novo Mini Clubman balança entre a razão e a paixão, mas inclina-se para esta. Pergunta no título: "O teu instinto alguma vez te deixou ficar mal?" Eu começo por agradecer o tratamento por tu. Tenho 20 anos. Qualquer pergunta exige resposta, ou pelo menos pressupõe-na, o que vem dar ao mesmo. Esta quer que eu responda que não, que o meu instinto nunca me deixou ficar mal. Eu tenho 20 anos, a minha auto-estima está na fase final de construção, preciso que me sugiram que a minha paixão, ou instinto, tem razão. Isso é natural, ou melhor, tem de ser natural. Por isso, o texto do anúncio, em apenas três linhas, usa três vezes a palavra "natural". "É natural" que eu me apaixone pelo Mini, "é natural" que eu queira muito ter um "e é natural", diz o texto, "que nem saibas explicar porquê".

 

Como não sei, o anúncio ajuda-me: "As 6 portas, o interior mais espaçoso, a bagageira de 360 litros e a Manutenção Incluída são boas razões para isso." Cá está, por portas travessas lá aparece a razão. Há razões, ou Razão, para eu me apaixonar pelo Mini. Num texto tão curto não se diz porque é "mais espaçoso" o interior do carro: mais em relação ao modelo anterior, que, portanto, seria pior? Ou mais espaçoso do que outros carros? Quais? E as maiúsculas em "Manutenção Incluída" são maravilhosas, pois dão um ar institucional que evita explicações adicionais.

 

O anúncio deixa de lado ou explicações, ou a Razão, para voltar ao princípio, como qualquer narrativa canónica: "Mas o teu instituto não precisa de explicações." É isso: meia bola e força. "Segue o teu instinto", reitera o "slogan". Segue a primeira impressão, porque é boa, segundo a linguagem axiomática da publicidade. Uma segunda impressão pode dar demasiada atenção à Razão. E eu sou jovem, não penso.

 

O anúncio do novo Renault Megane é mais sucinto. Renega a Razão, excepto por sugestão da cor azul do carro veloz na imagem fixa. Nas pouquíssimas palavras do reclame, invoca a paixão duas vezes: no "slogan" da marca, "Passion for life", e no "slogan" do modelo, "Wake up your passion". Ambos em inglês (português é para totós) e sem a habitual tradução com asterisco, como manda a lei da publicidade. Os elementos das frases poderiam ser trocados com felizes resultados. Por exemplo, "Wake up for life" e "Life for passion". Quando a retórica está cansada dá nisto. Parece que os "slogans" e os títulos e até os textos são uma obrigação, algo que o publicitário acha que o observador de anúncios espera ver neles. Publicitários de artigos de luxo, como perfumes, acessórios e roupa já prescindiram das frases inúteis, mas não os de carros.

 

A frase de acesso ao anúncio do novo Hyundai Tucson também é uma canseira: "Mudar é uma atitude." Num mundo inundado de mensagens publicitárias, não estarão os consumidores fartos ou pelo menos indiferentes a estes moralismos ocos? O texto acrescenta, no mesmo registo: "Descubra o poder da mudança." E o "slogan" da marca? "New thinking. New possibilities." Por favor. Já Demócrito, se falasse inglês, língua que não existia no seu tempo, poderia escrever frases destas, mas com um contexto mais rico.

 

O Novo Jaguar XE, talvez por estar noutro patamar, apresenta-se com frases mais referenciais, ligadas, um pouco que seja, ao mundo real. "Uma nova definição de berlina desportiva." A frase diz "coisas". O texto segue no mesmo caminho, com a habitual jactância da linguagem publicitária promovendo o seu produto, mas com referência a esse mesmo produto. Às vezes dá gosto este regresso aos bons velhos tempos da linguagem publicitária. 

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