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Francisco Mendes da Silva 15 de Setembro de 2020 às 18:54

A corda bamba de Ana Gomes

Ana Gomes candidata-se à Presidência da República numa corda bamba. Por um lado, não aguardando o apoio oficial do PS (António Costa já fez a sua opção), fará a pose de quem nem sequer o deseja, para manter a imagem de lutadora independente contra as “promiscuidades” (reais ou imaginárias), que é a sua mais-valia.

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Basta ver como já se atirou a Costa por causa do envolvimento deste nas eleições do Benfica. Por outro lado, a estratégia da “candidata do socialismo democrático”, como se definiu, depende da percepção de que é a opção natural da maioria dos eleitores do PS.

O voto em Ana Gomes será potenciado por uma de duas ideias: ou a de que é a única que poderá obrigar a uma segunda volta; ou a de que, pelo menos, é a que tem melhores condições de ficar em segundo lugar, bater André Ventura e conter o crescimento da direita radical. Qualquer uma destas “narrativas” contribuirá para concentrar em Ana Gomes o eleitorado de esquerda. Mas para gerar uma tal dinâmica é preciso começar cedo a aparecer destacada nas sondagens. Daí a importância de figuras centrais do PS lhe darem rapidamente o apoio expresso, mobilizando o eleitorado naquela direcção.

Este equilíbrio, entre ser e não ser a candidata do PS, é muito difícil. Seguramente Ana Gomes gostaria do apoio de Pedro Nuno Santos, que já anunciou que não votará em Marcelo, e das tropas que este tem no partido. Mas a presunção que por aí circula de que Ana Gomes será a candidata natural da “ala esquerda” dos socialistas deve, para já, mais à imaginação do que à frieza dos factos.

A vida interna dos partidos é determinada por cumplicidades e ressentimentos que estão além dos posicionamentos políticos e das fracturas ideológicas. Independentemente daquilo que seja o seu pensamento, Ana Gomes não é companheira de viagem da “ala esquerda”. É-o, sim, de Francisco Assis, António José Seguro e outras figuras “moderadas” ou “centristas”, com quem esteve na última refrega interna atacando António Costa como símbolo do PS dos “negócios” e dos “interesses”.

Quem não se lembra? A “ala esquerda”, que foi o grupo expedicionário e tropa de choque de Costa no desgaste de Seguro, lembra-se muitíssimo bem. Onde estiverem Ana Gomes, Assis e Seguro, duvido de que a “ala esquerda” esteja.

Além disso, a “ala esquerda” é “geringoncista”. Ou seja, vê o futuro da esquerda portuguesa assente em entendimentos entre o espaço do PS, do Bloco de Esquerda e do PCP. Para tal, é preciso que os dois últimos estejam minimamente fortes. Uma das diferenças entre 2015 e 2019 é que, há cinco anos, o PS precisava dos dois para governar, enquanto depois das últimas eleições passou a bastar o Bloco. Ora, a “geringonça” só é possível quando os dois têm de chegar a acordo com o PS. Se um for suficiente, nenhum é indispensável. Nem o Bloco nem o PCP vão chegar a um acordo com o PS, e sofrer as consequências de uma governação, enquanto deixam o outro partido de fora, a recolher a popularidade de estar na oposição.

Daí que a “ala esquerda” não só não irá a correr para Ana Gomes como se há-de sentir tentada a puxar para cima os outros candidatos presidenciais da esquerda. Especialmente – é uma aposta minha – o do PCP, porque para reconstruir a viabilidade da “geringonça” é necessário salvar os comunistas do actual definhamento. Isabel Moreira, a primeira a declarar apoio a João Ferreira, já deu o mote.

É claro que seria mais fácil se o próprio PCP tivesse ajudado com um candidato menos ligado à nomenclatura e à ortodoxia do partido. Um nome mais abrangente, vindo por exemplo do sindicalismo (Arménio Carlos ou Carvalho da Silva), permitiria ao PCP captar mais eleitorado na esquerda alargada, incluindo no PS.

De qualquer modo, convém lembrar que o PCP utiliza muitas vezes as presidenciais para lançar e testar eventuais futuros secretários-gerais (Carlos Carvalhas em 1991 e Jerónimo de Sousa em 1996 são os dois exemplos mais paradigmáticos). Ou seja, com o apoio a João Ferreira, ajudando-o a ter um bom resultado nas presidenciais, os “geringoncistas” do PS estariam a apoiar o próximo secretário-geral do PCP. Assim antecipariam hoje os entendimentos de amanhã – e fariam um favor que adiante haveriam de cobrar.

 

A vida interna dos partidos é determinada por cumplicidades e ressentimentos.
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