Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 20 de agosto de 2019 às 18:45

Ambientalismo à medida do freguês

O ambientalismo que foi de férias durante a “crise energética”, regressará já a 22 de setembro, no Dia Mundial Sem Carros. Então sim vão gritar contra a pegada ecológica do automóvel que nos restantes dias do ano deixam destruir até um centro histórico como Sintra.

As implicações da "crise energética" no negócio das empresas foram mera notícia de rodapé durante estes quinze dias, pouco parecendo importar fosse a quem fosse. O que abriu os noticiários foram as implicações da falta de combustível nas férias dos portugueses. Que, ficámos a perceber à exaustão, é sinónimo de levar o carro para todo o lado, seja para a voltinha pelo bairro, ou para o deixar mesmo à porta da praia, da romaria e, acima de tudo, do restaurante. Tudo isto sem que se ouvissem as vozes dos ambientalistas e dos políticos que elegem a ecologia como slogan que rende votos, a saudar esta oportunidade de aprendermos a viver sem ele. Subitamente, todos pareceram esquecer as tenebrosas ameaças do fim da espécie diariamente recitadas, e o desejo de andarmos permanentemente motorizados transformou-se num direito fundamental. Teria sido o momento ideal para António Costa repetir a frase que proferiu na inauguração da estação de metro da Reboleira em que anunciou que "As cidades levaram grande parte do século XX a habituarem-se ao automóvel e agora têm muito pouco tempo para se habituarem a viver sem o automóvel".

 

Em vez disto vimos diariamente o mesmo ministro que sentia que era urgente eutanasiar as nossas pobres vaquinhas para descarbonizar o ambiente, a afadigar-se em sucessivas conferências de Imprensa para garantir aos portugueses que poderiam alegremente despejar gramas de carbono à razão de 300 quilómetros por dia.

 

Na verdade, o planeta teria agradecido que também os automóveis fossem de férias, o que visivelmente só se consegue quando uma greve, ou uma tragédia, bloqueiam o comodismo individual.

 

Só para citar um exemplo, aqui por Sintra, a "crise energética" da Páscoa teve como efeito secundário permitir que por uns escassos dias fosse realmente respeitada a classificação de Paisagem Cultural património da humanidade atribuída pela UNESCO em 1995. Estatuto que visa proteger e preservar o conjunto de bens culturais e bens naturais, que sofrem a olhos vistos pela invasão do automóvel, autocarros, tuc-tucs e afins que a poluem e enchem de ruído muito para lá do aceitável. Foi louvável a coragem de fechar o centro da Vila ao trânsito, de instituir sentidos únicos, e a tentativa de limitar o estacionamento, mas as medidas de fundo repetidamente anunciadas são constantemente adiadas. Em grande parte porque embora façam parte do programa eleitoral de todos os partidos, eclipsam-se sempre depois das suas prioridades, por medo do custo eleitoral que imaginam poder representar o descontentamento daqueles que pensam que mais carro é mais negócio, ou dos que não aceitam o desconforto que o bem maior lhes provoca.

 

Por isso podemos ficar descansados, que nem aqui, nem em mais lado nenhum, nada vai realmente mudar e o discurso sobre o perigo dos automóveis para a pegada portuguesa só regressará a 22 de setembro, no Dia Mundial Sem Carros. Aí conte já com grandes descursalhadas em que os políticos nos vão apontar o dedo, debitando os crimes que cada automobilista comete sempre que foge aos transportes públicos, citando estudos que garantem que a sustentabilidade dos recursos naturais já ultrapassou todos os limites. Vão-se interditar ruas e praças à circulação rodoviária, anunciando que se devolve a cidade às pessoas, fingindo que era assim que pretendiam que elas fossem sempre. E nesse dia os telejornais vão mostrar famílias a passear pelas avenidas, e crianças a andarem de triciclo e a brincarem nas ruas, meias-maratonas que revelam como seria bom correr junto ao mar.

 

Mas todos sabem que é como o Natal, em que a sogra e a nora até trocam piropos - é coisa para durar pouco mais de vinte e quatro horas. A reação dos políticos e dos portugueses à possibilidade de faltar o combustível para as férias mostrou bem como rezam para que Deus os livre de ser Natal todos os dias.

 

Jornalista

pub

Marketing Automation certified by E-GOI