Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 18 de junho de 2019 às 19:25

Como fugir a festas de casamento

Abriu a época das festas de casamento, há que saber fugir delas.
Não me entendam mal, faz-me feliz que as pessoas casem, e radiante que o negócio dos casamentos cresça em proporção inversa aos que decidem dar o nó, mas faço parte do grupo de pessoas que adoram ser convidadas, desde que quem as convida não se ofenda com a recusa.

Não é nada de pessoal, mas apenas a constatação ao vivo, daquilo que a contabilidade do negócio revela, ou seja que, salvo honrosas exceções, se tornaram intermináveis sessões de desperdício de dinheiro, numa euforia histriónica em que o essencial parece ficar pelo caminho. "Um dia inesquecível", reza o slogan e, de facto, não é tão cedo que o conseguimos esquecer.

Segundo dados de um relatório da Exponoivos, em 2018 os portugueses gastaram 900 milhões de euros na festa do casamento. Não porque foram mais a casar, na realidade caíram para quase metade, mas porque se gasta cada vez mais em cada um deles.

Desde 1994, afirma o estudo, o custo médio da festa subiu nada mais, nada menos do que 74%, "derivado" à crescente exigência dos noivos e famílias, rondando neste momento os 26 mil euros por cada 100 pessoas, e são muitos os que excedem largamente esse número. Esta verba inclui o vestido da noiva, o fato do noivo, das madrinhas e das crianças, o batalhão de fotógrafos, com drones incluídos - que mais importante do que viver o momento, é interrompê-lo constantemente, para mais tarde o recordar -, o aluguer do espaço, as empadinhas e os croquetes e a bebida, muita, para entreter os convidados na longa espera que antecede o jantar, e depois a ceia, claro está, que como se imagina gente tão parcamente alimentada à meia-noite está cheia de fome. Somam-se-lhe também as surpresas, os livrinhos, os números de circo, e evidentemente o disk jockey. E a decoração, já me esquecia da decoração, entre atoalhados e flores, cadeiras a condizer e candelabros de onde caem enfeites e todos os números que um casamento de hoje exige.

Compreensivelmente tal arraial não está ao alcance dos mais novos, o que leva a que os infelizes se vejam na contingência de ficar a viver em casa dos pais, viajando profusamente para os redutos mais longínquos de forma a conseguirem uns merecidos momentos a sós, ou quanto muito juntando os trapinhos num apartamento para o qual os pais ansiosos que lhes desamparem a loja, contribuíram com a entrada. Quando, finalmente, quase a chegar aos 40 anos, o relógio biológico toca o alarme, apressam-se os nubentes a preparar a festa tão sonhada, com a vantagem, provavelmente a única, de já não terem de convidar os parentes da terceira idade que entretanto sucumbiram.

Com a parada sempre a subir, à medida que as amigas vão casando e inventado números nunca até ai vistos, percebe-se que sejam presas fáceis de quem explora este ramo de negócio. O "evento" não pode defraudar expectativas, mas o mais difícil talvez ainda seja encontrar, então, um destino para a lua de mel que não tenha já antes sido alcançado.

O convidado, que genuinamente queria celebrar com os noivos, e/ou os pais dos noivos, a alegria do novo enlace - e, finalmente, a esperança de um neto - vê-se assim metido num interminável sofrimento medieval, com requintes de inquisição espanhola. Para cumpridas as 24 horas de Le Mans jurar, pela milionésima vez, que nunca mais o apanham noutro.
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