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João Carlos Barradas - Jornalista 24 de Novembro de 2015 às 20:25

A coligação impossível

As primeiras mortes na escalada de alegadas e reiteradas violações russas do espaço aéreo da Turquia bastaram para lançar um balde de água fria sobre a grandiloquente retórica de coligações internacionais contra o terrorismo dos jihadistas do Califado Negro.

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As tácticas e a propaganda dos jihadistas do autoproclamado Califado ao lançarem ataques a alvos russos no Egipto e a cidades na Europa Ocidental propiciaram a oportunidade a países como França, Rússia ou Estados Unidos para relançarem uma pretensa guerra antiterrorista.    

    

Nos campos de batalha da Síria e Iraque, os combates contradizem ostensivamente a ideia de que estados da NATO, russos, curdos, monarquias sunitas e autocratas árabes, facções sunitas, druzas, cristãs e xiitas libanesas, a par do Irão, venham a  convergir numa aliança contra um putativo inimigo comum.

 

A ofensiva do Califado

 

Os jihadistas do Califado, proclamado no Verão de 2014, ao mobilizarem sunitas iraquianos, anteriormente radicalizados na luta contra as milícias xiitas, curdos, norte-americanos e seus aliados, conseguiram rapidamente ganhar terreno.

 

As ofensivas na Síria contra o regime de Al Assad e a minoria alauíta susceptível de entrar em confronto -  bem como cristãos, turcomenos ou druzos -, com 70% de sunitas alentados por correntes islamistas e salafistas, saldaram-se por bruscos ganhos territoriais na Mesopotâmia.

 

Desde Agosto de 2014, na sequência da conquista pelos jihadistas de Mosul, a capital do Norte do Iraque, os Estados Unidos viram-se obrigados a encetar ataques aéreos, alargando, em Setembro, com apoio de uma coligação política de 60 países, incluindo Portugal, os bombardeamentos a alvos do Califado na Síria.

 

A reorganização política no Iraque, promovida por Washington tentando agregar sunitas e curdos às esferas do poder central nas mãos de facções sunitas, fracassou entretanto, e o financiamento e o treino de grupos para combaterem jihadistas e o regime de Assad redundaram em fracasso.

 

A desagregação

A partir de Março deste ano as monarquias sunitas do Golfo mobilizaram-se para combater os avanços houthis no Iémen desguarnecendo a putativa frente árabe contra o Califado Negro na Síria, apesar de manterem o financiamento de grupos salafistas e outras facções jihadistas.

         

Ainda em Julho de 2015 Ancara passa a apoiar os ataques dos Estados Unidos a partir da base de Incirlik num jogo duplo em que o aríete do Califado lhe convém para conter ambições independentistas curdas na Síria capazes de exaltarem  compatriotas na Turquia e ampliarem a projecção de poder do Curdistão iraquiano e, eventualmente, destabilizarem a faixa nordeste iraniana.

 

Moscovo, alarga, por sua vez, a partir do final de Setembro a intervenção militar com ataques aéreos a forças anti-Assad, sendo o Califado Negro objectivo militar secundário até o atentado contra um voo comercial russo no Egipto, a 31 de Outubro, obrigar a reforçar os bombardeamentos a posições jihadistas.

 

Os bombardeamentos russos, coordenados com a intervenção de contingentes iranianos e do movimento xiita libanês Hizballah, evitaram a queda de Damasco, mas as frentes de batalha em Alepo ou Homs estão longe de estabilizar a favor da minoria alauíta que, em desespero de causa, resistirá na faixa costeira de Latakia onde se localiza a base russa de Tartus.

 

A força e a potência

 

O Califado Negro é, ainda, uma força decisiva na Síria e no Iraque.

 

Raqqa, na Síria, e Mosul, no Iraque, estão sob controlo dos homens de Al Baghdadi, apesar das reconquistas curdas na faixa norte síria e em Sinjar, no noroeste iraquiano, cortando as linhas de abastecimento oeste-leste do Califado.

 

A flagelação de redes de contrabando de petróleo do Califado ou sinais de debilidade em Raqqa, como a amnistia de desertores em vez da aplicação expedita de pena de morte, não obstam à constatação da actual relação de forças potencialmente favorável aos jihadistas.

 

Sauditas, russos, franceses, norte-americanos, iranianos e muitos mais estão longe de chegarem a acordos mínimos para combaterem inimigos na Síria e no Iraque.

 

Guerras intratáveis prosseguirão até ódios que as alimentam se esgotarem ou, mais provavelmente, outros confrontos e temores se imporem.       

 

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