Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
João Carlos Barradas 28 de Outubro de 2014 às 18:51

A conta por pagar

O ministro das finanças, Oleksander Shlapak, confirmou que será inevitável o próximo governo renegociar com o FMI o empréstimo de 17 mil milhões de dólares acordado este ano dada a degradação da situação económica e financeira.

  • Assine já 1€/1 mês
  • 4
  • ...

 

Numa Ucrânia em guerra e irremediavelmente dividida, o fracasso da extrema-direita e comunistas e o triunfo eleitoral de forças pró-ocidentais estão ainda longe de augurar um mínimo de estabilidade política para evitar a bancarrota do estado.

 

As legislativas de domingo fortaleceram a "Frente Popular" do primeiro-ministro Arseni Iatseniuk com quem o "Bloco Petro Poroshensko" terá de negociar em pé de igualdade (sensivelmente 22% para cada partido), obrigando ainda a considerar as posições da "Autoajuda" (11%) liderada pelo presidente da câmara de Lviv, Andrei Sadovi.

 

Os resultados preliminares indicam que "Pátria" da antiga chefe de governo Iulia Timochenko manterá representação parlamentar (6%) tal como o "Bloco da Oposição" (10%) - reunindo apoiantes do defunto "Partido das Regiões" do defenestrado chefe de Estado Victor Yanukovitch - e o "Partido Radical" (7%) de Oleh Liashko, populista oscilando entre retóricas de extrema-esquerda ou extrema-direita.

 

Alguns líderes de extrema-direita, como Vadim Troyan, com apoio da "Frente Popular", ou Dmitri Iaroch, do "Sector de Direita", concorreram em círculos uninominais maioritários tendo o último sido eleito em Dnipropetrovsk ainda que nem o seu partido (2%), nem os radicais de "Liberdade" tenham conseguido atingir os 5% necessários para representação na Rada, tal como o "Partido Comunista" reduzido a 4%.

 

A derrocada dos extremistas de "Liberdade" (4,7%) depois de atingirem 10,44% nas legislativas de 2012 mostra como o radicalismo xenófobo foi perdendo peso depois da retórica exasperada do líder de "Liberdade", Oleh Tiahibok, só lhe ter valido 1,16% nas presidenciais de Maio na ressaca do derrube de Yanukovitch em Fevereiro de 2014.

 

Os omnipresentes oligarcas mais próximos dos interesses do Kremlin como Rinat Akhmetov ou apostados na autonomia face a Moscovo, caso de Ihor Kolomoyskyi, fizeram eleger a tradicional clientela de deputados em contraste com a entrada na Rada de activistas democratas independentes como Tetiana Chornovol, mas os sinais de exaustão e alienação de largas faixas do eleitorado foram óbvios.

 

Um Leste cada vez mais longínquo

 

A participação entre 36 milhões de recenseados caiu dos 58% de 2012 para 52%, com valores de 70% nas regiões ocidentais de Lviv e Ternopol, favorecendo Iatseniuk e Sadovi, na ordem dos 40% em Odessa e Kharkiv, e baixando para os 30% nas áreas sob controlo governamental em Donetsk e Luhansk onde o voto favoreceu o "Bloco da Oposição".

 

Nas regiões russófonas a braços com a insurreição apoiada pelo Kremlin e na Crimeia anexada mais de 3 milhões de eleitores não participaram na votação que confirmou a politização das clivagens etno-linguísticas enquanto Moscovo prepara um escrutínio em Luhansk e Donestk para reforçar o estatuto negocial das entidades separatistas.  

 

A negociação de compromissos para conversações com Moscovo, a União Europeia e o FMI augura-se difícil tanto mais que se acumulam contas por pagar e as reservas em ouro e divisas cifram-se em 16 mil milhões de dólares.

 

O gás e a dívida

 

O ministro das finanças, Oleksander Shlapak, confirmou que será inevitável o próximo governo renegociar com o FMI o empréstimo de 17 mil milhões usd acordado este ano (tendo Kiev ainda por receber 2,7 mil milhões usd) dada a degradação da situação económica e financeira.

 

Shlapak, falando segunda-feira em Kiev, declarou ter fundos para honrar as obrigações financeiras até final de Janeiro, mas na véspera de novas negociações com Moscovo sobre fornecimentos de gás a garantia ministerial é algo duvidosa.

 

Pelas contas de Moscovo, que cortou fornecimentos em Junho, a companhia ucraniana "Naftogaz" é devedora de 5 mil milhões usd à "Gazprom" e Vladimir Putin estimou este mês, na Cimeira Europa-Ásia em Milão, em 10 mil milhões usd o total da dívida da Ucrânia à Rússia.

 

A "Naftogaz" terá, segundo os seus administradores, 3,1 mil milhões usd para ressarcir ainda este ano parte da dívida à "Gazprom", mas pretende apoio da UE e do FMI para poder retomar importações de gás sem pôr em causa os fornecimentos para ocidente, implicitamente por desvio de fluxos oriundos da Rússia que cobrem 1/3 das necessidades dos mercados europeus.    

                  

Patronos e credores

 

Durão Barroso numa declaração não vinculativa antes de deixar a presidência da Comissão Europeia admitira que a UE poderia contribuir com mil milhões usd, mas é verba insuficiente numa altura em que se confirmam os piores indícios sobre a contracção da economia ucraniana: quebra de 9,5% do PIB até ao último trimestre deste ano e redução do investimento directo estrangeiro de 7,2 mil milhões usd em 2012 para 3,8 mil milhões em 2013 e provavelmente menos de metade este ano.

 

A intransigência de Moscovo, pressionando a Ucrânia numa altura em que as sanções ocidentais levam Putin a entrar numa espiral de ameaças expansionistas, acentuando a veia autoritária, deixa escassa margem de manobra às forças políticas que venham a formar governo em Kiev tanto mais que putativos patronos ou aliados ocidentais dificilmente irão conceder créditos sem prova de efectiva capacidade de reformas de um sistema económico disfuncional.

 

Jornalista

Ver comentários
Mais artigos de Opinião
Ver mais
Outras Notícias