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João Carlos Barradas - Jornalista 09 de Setembro de 2014 às 21:00

A revolta da Escócia

Depois de 18 de Setembro, mesmo no caso de derrota independentista, a polítca escocesa tenderá a distanciar-se cada vez mais de Londres, sendo provável que a reivindicação de um estado separado volte a exigir novo referendo.

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Em choque com sondagens a indicarem a real possibilidade do referendo da próxima semana levar à independência da Escócia, a classe política unionista promete em cima da hora poderes ampliados para Edimburgo, mas instabilidade e incerteza institucionais são, a partir de agora, a sina das ilhas britânicas.   

 

Os mais de quatro milhões de eleitores registados dificilmente darão uma vitória decisiva aos defensores da manutenção do "Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte" estando assim reunidas as condições para uma prolongada disputa política entre Edimburgo e Londres.

 

O nacionalismo escocês, fortemente marcado pela oposição às políticas conservadoras seguidas por Margaret Tatcher a partir de 1979, teve uma das suas primeiras grandes vitórias no restabelecimento do parlamento de Holyrood no referendo de 1997.

 

Na chamada devolução de poderes Westminster abdicou de jurisdição sobre áreas da justiça, saúde, educação, política ambiental e de habitação, mas o unitarismo e centralismo do Estado foi preservado criando uma crescente tensão sobre tutelas, partilhas de receitas e autonomia política.

 

Pressões identitárias

 

Disputas por poderes partilhados e soberanias históricas nacionais no âmbito da monarquia constitucional estão em causa e são contaminadas pela retórica dos conflitos que opõem Londres aos parceiros comunitários em Bruxelas.

 

Num Reino Unido, especialmente em Inglaterra, cada vez mais marcado pela presença de comunidades oriundas das antigas possessões coloniais, divergências políticas podem gerar políticas identitárias muito acentuadas.

 

Reivindicações políticas identitárias, arreigadas entre católicos irlandeses, alastram na Escócia e Inglaterra, predominando pacificamente em Gales o culto da diferenciação linguística, e, conforme demonstra o referendo escocês os eleitorados revelam-se altamente sensíveis a reivindicações soberanistas que asseveram ganhos económicos.      

 

Só em 2011 o "Partido Nacional Escocês" de Alex Salmond conseguiria uma maioria parlamentar em Edimburgo e na campanha pelo sim a "um país independente" aproveitou em pleno as ambiguidades de uma aliança entre trabalhistas, liberais e conservadores.

 

A mensagem simples e inequívoca de que a Escócia tem legitimidade histórica e recursos, em especial o petróleo do Mar do Norte, para seguir uma política independente e socialmente equitativa sem se sujeitar à tutela de Londres, seus políticos conservadores e ambíguos trabalhistas, a partir de 2016 fez caminho frente a uma campanha unionista de teor negativo que ampliou essencialmente os riscos e consequências negativas da secessão.

 

Os perdedores em Londres

 

Promessas cada vez mais generosas de concessão de controlo de políticas fiscais e económicas, limitando o unitarismo britânico à partilha de um monarca constitucional e condução pelo parlamento de Westminster das políticas externa e de defesa foram, entretanto, aventadas pelo bloco unionista.    

 

Do referendo sobra já a evidência de que a Escócia será soberana como nunca desde a União de 1707; resta a dúvida se tal será bastante ou se os eleitores escoceses exigirão a plena independência.                                 

 

Ed Miliband é um dos perdedores sem remissão do referendo pois os trabalhistas, dependentes do voto escocês no caso de eleições tangenciais como sucedeu em 1964 e nas duas votações parlamentares de Fevereiro e Outubro de 1974, não conseguiram  evitar a alta independentista entre os seus eleitores escoceses.

 

David Cameron, se não ficar para a posteridade como o primeiro-ministro que perdeu a Escócia, bem como os aliados liberais, terá de se sujeitar a tamanhas concessões à autonomia de Edimburgo que os seus opositores nas hostes conservadoras rapidamente o porão em xeque nas eleições legislativas de 2015, acentuando a pressão para a saída do Reino Unido da União Europeia no referendo prometido para 2017.   

 

Secessão e autonomias

 

Depois de 18 de Setembro, mesmo no caso de derrota independentista, a política escocesa tenderá a distanciar-se cada vez mais de Londres, sendo provável que a reivindicação de um estado separado volte a exigir novo referendo.

 

No Québec, um primeiro referendo em 1980 saldou-se por uma clara derrota secessionista, mas 15 anos depois só por uma maioria de 50,6%, uma diferença rondando os 60 mil votos, a província se manteve na federação, tendo desde então o apoio à reivindicação soberanista do "Parti Québécois" evoluído em função das conjunturas económicas.

 

A distinta identidade histórica e política do Québec/Quebec no quadro do Canadá é bem diferente dos vínculos que unem irlandeses, sobretudo protestantes, galeses, escoceses e ingleses, mas quanto o maior património partilhado mais acentuada é  a relevência da oposição política no culto identitário.

 

A Inglaterra e a Escócia giram em órbitas políticas muito distintas e se o referendo não puser termo a 307 anos de União irá, pelo menos, gerar uma vaga de reivindicações pela descentralização de poderes, controlo de receitas fiscais, alimentando novos focos de poderes locais.  

     

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