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João Carlos Barradas - Jornalista 01 de Março de 2016 às 20:25

Irão baralha e dá de novo

As eleições no Irão reforçaram a legitimidade do regime e alargaram a margem de manobra de grupos apostados em diminuir o controlo estatal da economia e prosseguir a política de suspensão de projectos nucleares militares.

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As fraudes e as manipulações em larga escala que caracterizaram a eleição de Junho de 2009 para assegurar um segundo mandato presidencial para Mahmoud Ahmadinejad não se registaram na votação de sexta-feira.

 

Sem reclamações relevantes quanto ao escrutínio dos boletins de voto para o Parlamento e a Assembleia de Especialistas, ficou consolidada a legitimidade eleitoral dos diversos blocos políticos que a par do poder estatuído para as lideranças religiosas xiitas definem a arquitectura institucional.

                                           

A sucessão do Líder Supremo

 

Apesar de o Conselho de Guardiães (seis clérigos nomeados pelo Líder Supremo e seis escolhidos pelo presidente do Supremo Tribunal, sendo estas nomeações do responsável máximo do sistema judicial sujeitas a aprovação pelo Parlamento) ter vetado grande número de candidaturas desafectas às facções mais conservadores, as eleições saldaram-se por uma derrota das alas islamistas radicais e integristas.

 

A intervenção do Conselho de Guardiães, de acordo com suas prerrogativas de controlo da actividade parlamentar e tutela das interpretações da Constituição da República Islâmica, foi, por sinal, um dos factores que facilitaram a convergência das listas de candidatos conservadores, moderados e reformistas em Teerão contra os opositores mais radicais do Presidente Hassan Rohani.

 

Na Assembleia de Especialistas que supervisiona a actuação do Líder Supremo, as facções rigoristas clericais e ultraconservadoras sofreram uma assinalável derrota, tendo falhado a reeleição o presidente da instituição, o ayatollah Mohammad Yazdii.

 

A Assembleia, com um mandato de oito anos, poderá vir a ter de se pronunciar sobre a sucessão do Líder Supremo Ali Khamenei, eleito após a morte de Ruhollah Khomeini em 1989.

 

Khamenei nasceu em 1939 e, se calhar aos clérigos da nova Assembleia de Especialistas nomear um sucessor, a escolha será de ter em conta que, a partir de agora, 52 dos 88 intérpretes qualificados da "xaria" (lei islâmica) não alinham com as facções mais conservadoras. 

 

O confronto dos blocos

 

Para os 290 deputados do Parlamento (Majlis), a votação, apesar de obrigar a  segunda volta em Abril para cerca de meia centena de lugares, saldou-se por triunfos  significativos de reformistas (com os melhores resultados dos últimos dez anos e a salvo das exclusões sistemáticas de candidaturas ocorridas em 2012), moderados e conservadores.   

 

A participação dos cerca de 55 milhões de recenseados quedou-se pelos 62% (sem apelos a boicotes eleitorais) e a mobilização do eleitorado que na capital apoiou esmagadoramente candidatos reformistas teve o contraponto em vitórias de islamistas radicais e ultraconservadores em províncias como Khorasan Sul ou Razavi Khorasan.     

 

No conjunto das 31 províncias, a pulverização de alianças políticas, solidaridades étnicas (em particular entre as minorias azeri, 16% da população, e curda, 10%) e redes clientelares obsta a projectos de hegemonia política por parte das principais facções. 

 

Três grandes blocos, compreendendo, por um lado, islamistas radicais ultraconservadores, e, por outro, conservadores, moderados e reformistas, irão nos próximos quatro anos representar um dos pólos do poder em confronto ou apoio a Rouhani que poderá recandidatar-se à presidência no Verão de 2017.

 

A via de Rouhani

 

Os compromissos com o Líder Supremo, que detém a última palavra em questões de política externa e militar, os Guardas Revolucionários e as chefias das Forças Armadas permitiram a Rouhani celebrar em Julho o acordo que salvaguarda um programa nuclear civil e abriu caminho para o levantamento de sanções económicas e financeiras.

 

O Presidente tenderá a assumir os resultados eleitorais como um referendo à política de compromisso com as grandes potências na questão nuclear, salvaguardando a autonomia do Irão para contestar pretensões das monarquias sunitas e proteger os seus aliados no Iraque, Síria e Líbano.

 

A outra face do compromisso é o retorno do Irão às exportações de petróleo para recuperar quota de mercado como quinto maior produtor da OPEP, o acesso a financiamentos internacionais e a captação de investimento estrangeiro.

 

Os novos alinhamentos políticos podem, talvez, vir a favorecer alianças entre conservadores, moderados e reformistas no sentido de genérica liberalização económica e limitada abertura política, mas nada é seguro.

 

Alinhamentos semelhantes surgiram e fracassaram com Mohammad Khatami, entre 1997 e 2005, e, actualmente, o antigo presidente é um "não-ente", banido das discussões públicas e proibido de viajar ao estrangeiro.

 

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