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João Carlos Barradas - Jornalista 21 de Agosto de 2013 às 00:01

O Egipto é uma dádiva dos generais

Qualquer governo israelita será, por sua vez, realista em campo minado e continuará a forçar Washington a manter a ajuda militar ao Cairo para compra de armamento norte-americano (80% das aquisições totais no sector da defesa egípcio).

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A crer na propaganda que emana do Cairo só as forças armadas garantem a perenidade do Egipto e todo e qualquer crítico da repressão contra os "Irmãos Muçulmanos" e demais grupos islamitas é conivente com o terrorismo.


O objectivo do chefe das forças armadas, Abdul al Sisi, é erradicar a ameaça política dos islamitas retomando o exemplo de Gamal Nasser nas décadas de 50 e 60 e impondo a repressão em toda a linha contra os "Irmãos Muçulmanos".

Al Sisi está, contudo, condenado ao fracasso pois sem credenciais democráticas não conta sequer com o alento de uma ideologia revolucionária similar às veleidades socialistas e panarabistas do nacionalista Nasser.

Os "Irmãos Muçulmanos", por seu turno, desde a fundação do movimento em 1928, em Ismailia, sobreviveram a diversas vagas repressivas, irradiaram a sua influência da Palestina à Síria, passando pela Argélia e o Sudão, e a partir dos anos 70, após renunciarem à violência, ampliaram uma rede assistencial e de alianças que lhes permitiu ganhar acrescido peso político e ideológico em alternativa ao fracasso do nasserismo.

O movimento conheceu, também, dissidências terroristas tendo encontrado em Sayyid Qutb, enforcado em 1966, um advogado da guerra santa contra os poderes instituídos tidos por apóstatas.

O radicalismo assumiu um cunho ainda mais intransigente com outros ideólogos, como Abdel Fareg, apostados na instauração de uma lei islâmica ao arrepio das tradições ortodoxas.

A virtuosidade organizativa e maleabilidade da "Irmandade" ante a crise criada pelo impasse sucessório do regime autocrático de Hosni Mubarak acabou por levar o movimento ao poder numa altura em prevalecem valores islâmicos conservadores e mesmo radicais entre a população e se constata um acentuado enquistamento comunitário entre os discriminados cristãos coptas (cerca de 10 % dos 84 milhões de egípcios).

Em menos de um ano o presidente Mohammed Morsi, apanhado no vórtice de tendências totalitárias da "Irmandade", falhou a difícil conciliação com as forças armadas, alienou os salafistas de "al Nour" (próximos dos wahabitas de Riade), atemorizou coptas e secularistas, foi incapaz de impor novas políticas económicas e acabou confrontado com o pesadelo maior: a ruptura com os comandos militares.

O golpe que depôs Morsi marca o ascendente entre os comandos militares dos "éradicateurs" apostados em seguir o exemplo dos camaradas argelinos que, em 1991, enveredarem pelo extermínio da "Frente de Salvação Islâmica" e potenciais suspeitos islamitas ou de Hafez al Assad, o alauíta mão-de-ferro de Damasco, que, em 1982, arrasou Homs para extirpar os "Irmãos Muçulmanos".

A outra irmandade

O retorno às claras do poder de facto do complexo militar-empresarial egípcio tem uma vertente internacional em que se confundem desvairados interesses de cliques e estados do Levante ao Golfo Pérsico.

As monarquias da Arábia Saudita, dos Emiratos Árabes e do Kuwait assumiram imediatamente após o golpe contra Morsi de 3 de Julho, o financiamento do Egipto, avançado com 12 mil milhões de dólares, afastando, assim, o risco de uma crise financeira e equilibrando a balança de pagamentos do Cairo.

Esta irmandade autocrática dispõe-se a cobrir eventuais cortes na ajuda dos Estados Unidos, da União Europeia e do Qatar, patrono financeiro dos "Irmãos Muçulmanos", mas os cheques das monarquias petrolíferas não compram bases sociais de apoio a políticas de reforma económica no Egipto.

Veleidades de consensos políticos mínimos no Egipto estão fora de questão para os próximos anos.

Os cerca de 30% de egípcios que apoiaram até muito recentemente os "Irmãos Muçulmanos" tenderão a ser receptivos ao exemplo de devoção e martírio ante a perseguição dos militantes islamitas e os militares dificilmente forjarão um entendimento com "al Nour".

Qualquer governo israelita será, por sua vez, realista em campo minado e continuará a forçar Washington a manter a ajuda militar ao Cairo para compra de armamento norte-americano (80% das aquisições totais no sector da defesa egípcio) um financiamento que é, de facto, um dos garantes da paz entre Israel e o Egipto.

Suspeita visceral

As confusas e conflituosas linhas de fractura no Médio Oriente não vão permitir que a nova ditadura militar no Egipto engendre um regime semi-democrático, excluindo movimentos islamitas, sem que todo um instável sistema de alianças seja posto em causa.

Para Recip Erdogan o golpe de al Sisi é cabala judia e o islamismo moderado no poder em Ancara teme pela sorte dos seus émulos na Tunísia e na Líbia.

A visceral suspeita mútua que islamitas e seus adversários alimentam nas margens do Nilo e a tomada do poder pela força é apenas um exemplo da ferocidade das disputas entre sunitas e pálida imagem da violência que caracteriza confrontos envolvendo ainda xiitas, curdos, alauítas, turcomenos e outros grupos étnico-religiosos das montanhas do Líbano aos pântanos de Bassorá.

Em fundo um confronto maior envolvendo o Irão aguarda o seu desfecho.

Jornalista

barradas.joaocarlos@gmail.com

http://maneatsemper.blogspot.pt/



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