João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 04 de abril de 2017 às 20:30

Trump face à China sem Twitter que lhe valha

Desde 2006, a Coreia do Norte é potência nuclear militar e o regime nunca abdicará do seu arsenal atómico.

Uma declaração genérica sobre cooperação e interdependência económica, salvaguardando a criação de emprego, respeito por propriedade intelectual, além de empenho na procura de maior equilíbrio nas trocas comerciais e acréscimo de investimento, é o melhor que Donald Trump pode esperar da cimeira com Xi Jinping. 

 

Face às declarações e atitudes bombásticas e incoerentes de Trump, Pequim tem-se manifestado irredutível em questões de soberania relativas a Taiwan ou reivindicações territoriais no mar do Sul da China e aberta à negociação quanto a matérias económicas e comerciais.    

 

O incremento do investimento directo nos Estados Unidos (109,5 mil milhões usd entre 2010 e 2016, segundo estimativa do "Rodhium Group") por empresas privadas e estatais é aceitável e desejável para Xi como trunfo negocial.

 

A criação de postos de trabalho pode ser apresentada como uma das vantagens do investimento chinês, deixando de lado, de momento, objecções a aquisições em sectores estratégicos sensíveis (portos, infra-estruturas energéticas, por exemplo) ou  áreas tecnológicas passíveis de utilização militar.

 

Da parte de empresas norte-americanas, apesar dos apelos de Trump ao investimento no próprio país, as exigências de respeito pela propriedade intelectual ou eliminação de tarifas excessivas (caso da indústria automóvel que enfrenta tarifas de 25% para as suas exportações) são essenciais para valorizar investimentos na China cujo total orça em 228 mil milhões usd, também de acordo com o "Rodhium Group".

 

O défice de 347 mil milhões usd de 2016 demorará a reduzir dado que componentes ou produtos acabados importados da China não serão facilmente substituíveis e qualquer iniciativa unilateral trará turbulência aos mercados financeiros dos dois países e ao sistema internacional.

 

Para maior frustração de Trump o Presidente chinês está apenas aberto a um compromisso sobre princípios que permita a manutenção dos fluxos comerciais e de investimento, abrindo a porta a posteriores negociações pontuais ao arrepio de tiradas bombásticas.

 

Os progressos do programa militar nuclear e dos testes de mísseis de longo alcance de Pyongyang, outro tema maior da cimeira, auguram, pelo contrário, escassa margem para entendimento.

 

A ameaça de ataque militar lança o alarme e leva água ao moinho do candidato de esquerda Moon Jae-in, favorito nas eleições presidenciais de Maio na Coreia do Sul e indesejável aos olhos de Trump.

 

A instalação este ano do sistema de mísseis antibalísticos (THAAD) na Coreia do Sul foi contestada por Pequim por vigia radar intrusiva no seu território e está na origem de crescentes pressões económicas da China contra Seul.

 

O sistema norte-americano não protege Seul de retaliação militar massiva em caso de ataque a Pyongyang, argumento vital em qualquer negociação sobre a ameaça norte-coreana e factor essencial na avaliação que aliados e adversários de Washington fazem do respeito da Casa Branca pela segurança alheia.

 

Neste cenário são de esperar novas sanções contra empresas ou bancos chineses que violem bloqueios internacionais e norte-americanos impostos à Coreia do Norte que Pequim acabará por acatar.

 

Iniciativas como a cessação de fornecimentos de petróleo a Pyongyang ou o cancelamento total de compras de carvão são, por outro lado, difíceis de tomar por Pequim dado o risco de colapso económico da Coreia do Norte com fome generalizada à imagem do que ocorreu entre 1994 e 1998.

 

Para a China, e em menor grau para a Rússia, lidar com Kim Jong-Un é um exercício de equilíbrios para evitar o afundamento agónico do regime que redundará em última análise na unificação da península sob a tutela de Seul.

 

Trump nada resolverá unilateralmente e a via negocial, fatalmente marcada pelo acordo aceite por Bill Clinton em 1994 e que falhou no controlo da produção de urânio enriquecido para fins militares, está agora circunscrita à limitação de testes nucleares e de mísseis balístiscos.

 

Desde 2006, a Coreia do Norte é potência nuclear militar e o regime nunca abdicará do seu arsenal atómico.

 

O destino de Saddam Hussein e Muamar Gaddafi, o não cumprimento das garantias da Rússia, Estados Unidos e Reino Unido quanto à integridade territorial e soberania da Ucrânia que levou Kiev em 1994 a abdicar do seu armamento nuclear, são exemplos bem presentes em Pyongyang.

 

O impasse norte-coreano e o temor de acções irreflectidas de Trump e Kim vão sobressair no rescaldo da cimeira de Mar-a-Lago.     

 

Jornalista

pub

Marketing Automation certified by E-GOI