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Jorge Fonseca de Almeida 21 de Abril de 2020 às 18:01

“Koyaanisqatsi”

No final destes tempos provavelmente Portugal estará no grupo dos três países mais pobres da Europa. Eis a que nos levou a impensada e impreparada adesão à União Europeia primeiro e ao Euro depois. Um país frágil, dependente, incapaz de resistir aos abalos externos.

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"Koyaanisqatsi" é uma palavra da língua hopi, um povo nativo-americano do Estado do Arkansas nos Estados Unidos. Uma língua gramaticalmente complexa em que em vez do simples singular e plural existem mais dois casos. Nessa língua Koyaanisqatsi expressa a ideia de uma "vida desequilibrada", de uma situação em que se exige "outra forma de viver", mais em sintonia com os outros e com a natureza.

 

Nenhuma palavra poderia traduzir melhor a presente situação que esta palavra de uma língua quase extinta de um povo milenar destroçado e dizimado pela colonização.

 

Nenhuma peça musical expressa de forma mais límpida esse sentimento de "vida desequilibrada" e essa ansia de mudar de vida, que a obra de Philip Glass e o filme, de Godfrey Reggio, que a ilustra. Apesar de criados em 1983 o filme e a música carregam as angustias e as esperanças que vivemos hoje.

 

A angústia de uma pandemia mortífera que se instalou no nosso quotidiano e que nos tolhe os movimentos, a expressão, os movimentos, e que no atual quadro político europeu, que não soube travar a doença a tempo, exige agora a supressão dos direitos básicos, sem que se perceba a eficácia dessa suspensão de direitos laborais e sociais no combate ao vírus.

 

A angústia de verificar que muitas das medidas anunciadas não passam do papel, não sendo operacionalizadas – algumas ajudas não podem ser acedidas porque o Governo se "esqueceu" de criar o impresso necessário – ou não respondendo a necessidades reais e concretas – escola pela internet num país em que grande número de crianças não tem computador, nem possibilidade de pagar ligações à internet.

 

A angústia da austeridade que se avizinha e que, muito provavelmente, levará à alienação de boa parte do já muito reduzido tecido empresarial português a estrageiros (veja-se a venda em curso da Brisa e outras empresas da esfera dos Mellos), ao empobrecimento da população mais fragilizada, à míngua da classe média, à emigração massiva dos portugueses melhor qualificados. No final destes tempos provavelmente Portugal estará no grupo dos três países mais pobres da Europa. Eis a que nos levou a impensada e impreparada adesão à União Europeia primeiro e ao Euro depois. Um país frágil, dependente, incapaz de resistir aos abalos externos.

 

Simultaneamente avoluma-se um sentimento, uma esperança, num "mudar de vida" como aquele que num 25 de Abril já longínquo e desconhecido da maioria dos portugueses, fez vibrar uma geração e abriu um caminho diferente do que então perseguíamos e que nos surgia como um beco tão sem saída como o momento atual.

 

Koyaanisqatsi, afinal uma palavra bem portuguesa. Uma palavra apropriada ao mês de abril.

 

Economista

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