José Eduardo Martins
José Eduardo Martins 16 de fevereiro de 2016 às 20:20

O Funambulista 

Em entrevista ao Expresso, António Costa deu mais um passo na carreira de funambulista procurando chamar a si o PSD: "O mundo continuou e há novos desafios, novos problemas, novas respostas que é preciso dar. Hão-de (o PSD) libertar-se do passado e hão-de regressar."

Ao contrário do que diz Costa, não há nem tempo novo, nem problemas novos e sobretudo ele não tinha, e menos tem agora, qualquer resposta nova para dar.

 

Já percebemos que há uma dimensão de conhecimento a que António Costa sendo alheio designa por "técnica". A falta de estudo não atrapalha o nosso príncipe. Cortar mais de mil milhões de euros como Bruxelas lhe mandou não é, no dizer do nosso grande líder, política… e talvez por isso já lhe seja difícil recordar o seu próprio programa.

 

A ideia do PS de Verão era, no essencial, repetir o credo da primeira década do euro: aumentar rendimento equivale a fazer crescer a economia. No cenário macroeconómico encomendado ao grupo de economistas, apresentado como garantia da diferença possível dentro do euro, a sobretaxa era devolvida em dois anos e a margem de manobra servia para acudir aos mais pobres. Os desempregados por via da redução da TSU. E os trabalhadores de baixos salários através do complemento salarial…

 

Depois vieram as eleições. E o que se seguiu, como aqui se escreveu, presumia uma impossível alquimia. Uma aliança entre quem quer estar na Europa e quem dela sonha sair.

 

Para trincar o poder, António Costa nem com o Syriza quis aprender. Ensaiou um discurso que dividiu artificialmente o país e comprou uns meses de Governo por via de uma reversão dos cortes ainda mais imprudente e rápida do que aquela que já levava os seus economistas ao limite da credibilidade. 

 

Acautelou primeiro os funcionários públicos, devolveu a sobretaxa ao arrepio do que tinha escrito, acabou com as 40 horas e por aí fora. Tudo leite e mel. Esqueceu-se do que tinha dito sobre o Tratado Orçamental e assim se passaram dois meses de bebedeira em que o Governo revogou em vez de governar.

 

No fim da euforia foi preciso fazer um orçamento… A realidade "técnica" não demonstrou que não havia alternativa. Demonstrou só que o PS sabotou a sua própria alternativa. Por muito que seja conveniente fugir das responsabilidades e imaginar que há uns maus no Norte que nos querem finos, a verdade é que foi o PS que abandonou o seu programa para ser Governo.

 

O resultado é no mínimo irónico. Os sacrificados foram os que no início iam ser protegidos. O orçamento de expansão passou a orçamento de consolidação. Mantém a carga fiscal como assume a errata, mas substitui os impostos directos sobre o trabalho e capital - consequentemente progressivos - por impostos indirectos que tratam ricos e pobres da mesma maneira. 

 

Um orçamento que antecipa um crescimento que mais ninguém vê e estriba um quarto da consolidação no ISP agora que o petróleo volta subir tem tudo para ser uma asneira cara.

Voltando ao princípio, António Costa intui que quando os parceiros comunistas que arranjou lhe exigem o que o Syriza não fez é só uma questão de tempo, de pouco tempo, até precisar de novo passe de mágica para se aguentar.

 

Ora onde falta estadista sobra artista como temos visto: já conseguiu aprovar um orçamento rectificativo com o voto do PSD e prepara-se para repetir a graça antes do Verão.

 

Está na hora de o PSD começar a responder à altura. Quanto mais alto sobe o arame de Costa mais se alarga a oportunidade de concretizar o novo mote. Social-democracia, sempre. Vamos a isso. Porque faz mesmo falta.

 

Advogado

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