Tomates e caracóis
Esta semana um agricultor queixava-se da chuva em Setembro. Por causa dela, os tomates estavam a apodrecer. A agricultura tem destas coisas. Chuva a mais, chuva a menos, muito calor, frio, doenças, pragas e por aí adiante. Enfim, um martírio.
A agricultura é uma das atividades humanas mais incertas, dependente de fatores externos e imponderáveis. Mas será mesmo assim? Ou estamos a falar de uma agricultura que pouco evoluiu desde o neolítico? Atiram-se uns grãos para a terra e depois reza-se à espera que a sorte e a meteorologia ajudem.
Não precisa ser assim, na verdade, já não o é em muitas partes do globo. A Holanda, que tem chuva, neve e muito frio, é um dos maiores produtores europeus de tomate. E também de flores. Habituados a reinventar a natureza, são exímios fabricantes de terra firme, há muito que os holandeses desenvolvem uma agricultura controlada, usando estufas com temperatura e humidade ideais, livre de pragas e sobretudo com muito sol, ainda que artificial. Os tomates holandeses vivem num eterno verão.
A Holanda tem a maior extensão de estufas do mundo, mas outros países vão entrando nesta corrida de futuro. Embora com menor sofisticação, com simples coberturas de plástico, Almeria em Espanha é outro exemplo impressionante de uma agricultura que tenta superar os condicionalismos da natureza. Do ar, nem é preciso andar de avião basta ir ao Google Earth, pode ver-se o gigantesco mar de plástico e acrílico que cobre a terra gerando um efeito de estufa em favor da produção intensiva de fruta e vegetais. Não é uma solução ideal, já que tem nefastos efeitos colaterais, mas revela essa tendência global para um novo tipo de agricultura.
Mais sofisticada é a produção agrícola sem necessidade de solo, chamada hidropónica. As raízes da planta recebem todos os nutrientes necessários, podendo ser suspensas ou mergulhadas num qualquer componente inerte. Esta técnica tem permitido a emergência de uma agricultura em meio urbano, de que os famosos Jardins da Babilónia terão sido uma primeira tentativa. Combinando hidroponia, painéis solares e eletrónica vão aparecendo projetos considerados futuristas, transformando telhados e mesmo edifícios inteiros em verdadeiras herdades citadinas. Não já as bucólicas hortas de Ribeiro Teles, mas vastas plantações verticais que poderão no futuro fornecer alimentos frescos a uma população cada vez mais concentrada nas cidades.
Também no mar se observam tendências semelhantes. A pesca tradicional é uma atividade pré-neolítica, típica de caçador/recoletor, destruindo os fundos dos oceanos, matando tudo, o que se come e o que não se come. Com muitas espécies à beira da extinção, a atividade piscatória vira-se agora finalmente para a criação intensiva em viveiro sobretudo de peixes e bivalves. Em pouco mais de uma década passou-se de uma prática suplementar para cerca de metade do peixe consumido a nível mundial.
Em resumo, a nova agricultura e a nova pesca são áreas de inovação com um enorme potencial de desenvolvimento. Neste contexto, gostei de ler que um jovem algarvio se dedica à produção em viveiro do chamado caviar de caracol, constituído pelos ovos do bicho num trabalho delicado e moroso, mas resultando num produto gourmet cujo preço atinge 1.500 euros por quilo.
De qualquer modo em Portugal estamos, como é habitual, atrasados. A inércia da tradição, o bloqueio administrativo que leva a que se esperem anos por uma simples licença, e, sobretudo, a falta de visão política, dificultam a evolução inevitável.
A este propósito recordo o salto notável que se deu no desenvolvimento das energias renováveis, pela mão do tão odiado governo Sócrates, passando o país de importador a exportador em menos de uma década. Com a oposição dos sempre céticos, dos ignorantes e dos interessados na energia nuclear, Portugal tornou-se pioneiro nesta decisiva área para o nosso futuro comum.
A produção alimentar precisa do mesmo tipo de visão e determinação. Não será com o atual governo e sua estratégia de empobrecimento e atraso. Esperemos que o próximo já viva no século 21.
Artista Plástico
Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico
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