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Manuel Falcão - Jornalista 11 de Junho de 2021 às 10:20

Festa é festa

A mais recente novela da TVI, que tem dado dores de cabeça à concorrência, chama-se "Festa é Festa" e é vista regularmente por mais de um milhão de espectadores. Mas não é de novelas que se trata e sim do que se vem passando no país após ano e meio de pandemia, confinamentos variados e uma acentuada quebra da economia portuguesa.

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ARCO DA VELHA

 

Numa só semana, o Ministério dos Negócios Estrangeiros desentendeu-se com o Reino Unido e Espanha no contexto da pandemia segundo o velho princípio: "Depois de casa roubada, trancas à porta."

  

BACK TO BASICS

 

Não estou aqui para agradar a ninguém com as respostas que dou.

William Shakespeare

 

DIXIT

 

Não gosto de viver num país que, em nome do "interesse nacional", trata pior os seus que os forasteiros de passagem.

Miguel Sousa Tavares

 

FESTA É FESTA

 

A mais recente novela da TVI, que tem dado dores de cabeça à concorrência, chama-se "Festa é Festa" e é vista regularmente por mais de um milhão de espectadores. Mas não é de novelas que se trata e sim do que se vem passando no país após ano e meio de pandemia, confinamentos variados e uma acentuada quebra da economia portuguesa. É com este pano de fundo que os cidadãos assistem ao que se passa. Para começar com festa, recordo que o ministro da Economia, que tutela o sector do turismo, achou por bem, há algumas semanas, ir passear num cruzeiro oferecido por Mário Ferreira, com quem o Estado tem um contencioso, devido à recusa de autorização em zona protegida da construção de um novo hotel no Douro - o local do passeio. O ministro conviveu sorridente com o patrão da TVI e com a estridente Cristina Ferreira e ocorreu-me que um ministro podia ter mais recato.

Há dias, soube-se também que a deputada do PS Ana Paula Vitorino foi a escolhida pelo ministro Pedro Nuno Santos para presidir à Autoridade da Mobilidade e dos Transportes com um salário superior a 12 mil euros mensais. Por falar em Pedro Nuno Santos, ficou a saber-se esta semana que um seu ex-chefe de gabinete e ex-deputado do PS, Nuno Costa Araújo, entretanto colocado como presidente dos portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo, é suspeito de corrupção numa investigação sobre ajustes directos de várias autarquias, nos últimos cinco anos, à empresa de que Araújo era sócio-gerente.

Para continuar a festa, Pedro Adão e Silva, ex-secretário nacional do PS durante a liderança de Ferro Rodrigues e entretanto tornado comentador político em defesa do Partido Socialista, foi nomeado responsável pelas comemorações do 50.º aniversário do 25 de Abril, durante cinco anos, seis meses e 24 dias, ou seja, mais de dois anos depois de realizadas as comemorações. Assim, a celebração dos 50 anos do êxito do Movimento dos Capitães, que restaurou a liberdade, o pluralismo político e que acabou com uma ditadura, foi entregue a um propagandista partidário. Se isto tudo não é uma festança, digam-me lá que nome lhe hei-de colocar?

 

SEMANADA

 

Três quartos da queda do PIB devem-se ao colapso do turismo n 11 meses depois de aprovada, a bazuca de fundos europeus continua no papel, e durante a presidência portuguesa da comunidade a coisa não avançou n os espanhóis propuseram uma ligação de comboio directa entre Madrid e Lisboa via Badajoz e Elvas, mas a CP prefere a ligação com passagem por Salamanca, Vilar Formoso e Guarda n a líder da bancada parlamentar do PS pediu sensatez ao ministro Pedro Nuno Santos por causa dos comentários do governante sobre a Ryanair n apesar de ter anunciado lucros, o Novo Banco pretende receber mais 600 milhões de euros do Estado n a taxa de sucesso da Autoridade Tributária nos conflitos com os contribuintes caiu para o valor mais baixo dos últimos dez anos n o apoio do Estado para pagar rendas de casa a pessoas em dificuldades durante a pandemia chegou apenas a 769 famílias e com atrasos consideráveis, quer na resposta aos pedidos, quer no recebimento de apoios n o secretário-geral do PSD, José Silvano, vai a julgamento por faltas na Assembleia da República e acusado de falsificação da presença em plenário n o PAN anunciou querer chegar ao Governo em 2023 n o novo presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Henrique Araújo, no discurso de posse do cargo, acusou a classe política de inércia  argumentando falta de diálogo democrático, demitiram-se sete dos 17 peritos nomeados pelo Governo para elaborar a estratégia portuguesa para uma nova Política Agrícola Comum europeia n numa análise preliminar do instituto Bruegel, Portugal é dos países onde a componente ambiental tem menos peso nas escolhas dos projectos a executar com o dinheiro do fundo de recuperação europeu n durante a pandemia, a produção de canábis em casa para autoconsumo disparou devido à escassez de produto no mercado.

 

UM EDITOR-ESPIÃO

 

"Dr. B." é um fascinante livro sobre as atribulações de um editor literário. Passado em Estocolmo no clima da ascensão do nazismo e da II Guerra Mundial, o livro tem como protagonista um jornalista judeu refugiado em Estocolmo, que se tornaria um "espião duplo", simultaneamente colaborador dos Serviços Secretos britânicos e alemães. Funcionário da célebre editora S. Fischer Verlag - a mesma que continuou a publicar na Suécia autores proibidos pelos nazis como Thomas Mann e Stefan Zweig -, Immanuel Birnbaum entrou nos meandros do conflito que assolava a Europa. O autor de "Dr. B.", Daniel Birnbaum, é um prestigiado curador artístico e dirigiu as edições da Bienal de Veneza em 2003 e 2009, tendo sido director do Museu de Arte Moderna de Estocolmo. O protagonista desta aventura entre a literatura e a espionagem é um antepassado de Daniel Birnbaum, e o título - "Dr. B." - evoca a assinatura que o editor-espião utilizava para assinar os seus artigos na imprensa, outras das suas actividades. Na década de 1940, Estocolmo era uma cidade de encruzilhada, entre emigrantes, expatriados, diplomatas e espiões. O livro é baseado em factos reais, reconstruído a partir de uma caixa de cartão repleta de documentos encontrada no sótão de uma casa de família. Uma narrativa cativante sobre a literatura e o cruzamento do jornalismo com a espionagem.

 

ARTE POLÍTICA

 

Ai Weiwei, cuja exposição "Rapture" inaugurou em Lisboa no início de Junho, é apontado como um dos maiores artistas contemporâneos e, no ano passado, o site Artnews considerou-o o artista plástico mais popular e influente no mundo. Esta sua exposição é a maior que já fez na Europa e ocupa cerca de quatro mil metros quadrados na Cordoaria Nacional, onde apresenta 85 peças, até finais de Novembro. A exposição foi produzida expressamente para ser apresentada em Portugal por uma empresa privada que, nos últimos anos, tem trabalhado esta área, a Everything Is New, de Álvaro Covões. Assumir posições políticas faz parte da personalidade de Ai Weiwei há muito - ele tem 63 anos, é filho de um poeta que foi amigo de Mao Zedong (e que foi perseguido no período da Revolução Cultural Chinesa). Weiwei tem sempre vivido combinando criativamente a política com a fantasia - as suas obras são enormes, simbólicas, como as bicicletas que estão à entrada da Cordoaria ou as peças que criou para a Documenta, na Alemanha, ou para a Tate, em Londres. Exilado desde 2015, Ai Weiwei vive hoje em dia em Portugal, em Montemor-o-Novo, depois de ter passado pelo Reino Unido e pela Alemanha. Apesar de ter sido um dos co-autores do emblemático estádio "Ninho de Pássaro" que marcou os Jogos Olímpicos de Pequim em 2008, Ai Weiwei foi detido em 2009, e em 2011 e viu o seu estúdio destruído pelas autoridades. Esta exposição, que junta peças de instituições oficiais e colecções particulares de diversos países, coloca também em confronto, pela primeira vez, algumas obras que nunca tinham sido montadas em simultâneo, além de quatro peças já produzidas em Portugal, com recurso a materiais como a cortiça ou o mármore alentejano. O brasileiro Marcelo Dantas é o curador desta exposição que mostra como o trabalho de Ai Weiwei reflecte sobre a privacidade, o controlo da informação, a desproporção entre o Estado, os poderes das corporações e a autonomia e liberdade dos indivíduos.

 

BOWIE CANTA BREL

 

"The Width of a Circle" é o título de um duplo CD que reúne uma colecção de 21 temas de David Bowie, em versões até agora inéditas. As gravações foram efetuadas em 1970 e 1971, incluindo singles nunca agrupados em álbum, gravações feitas em programas da BBC, música composta para uma peça de teatro realizada para televisão - e onde o próprio Bowie era ator -, além de misturas inéditas de Tony Visconti, um dos músicos com quem mais trabalhou. Quatro canções mostram Bowie acompanhado pelos Hype, a sua banda da época, que incluía Tony Visconti no baixo e Mick Ronson na guitarra. O primeiro disco reproduz uma sessão de gravação feita para o "Sunday Show" de John Peel na BBC, gravado e emitido em Fevereiro de 1970. O primeiro tema é uma versão de "Amsterdam", um original de Jacques Brel, em que Bowie toca guitarra acústica. Outra da curiosidades desta edição é uma versão de "I’m Waiting For The Man" dos Velvet Underground e dois inéditos de Bowie a solo, só voz e guitarra, em "Columbine" e "The Mirror", temas compostos para a já referida peça teatral, intitulada "The Looking Glass Murder/ Pierrot in Turquoise". Esta edição surge 50 anos depois do lançamento original de "The Man Who Sold The World". Podem ouvir "The Width of a Circle" nas plataformas de streaming.

 

 

SARDINHA RECOMENDA-SE

 

Inaugurei esta semana a época das sardinhas, no Último Porto, um restaurante junto à Estação Marítima da Rocha do Conde de Óbidos. A sua grelha nunca desilude e o peixe é variado e de primeira, e nesta altura do ano as sardinhas ali servidas têm fama. A grelha, aliás, é um dos argumentos deste restaurante. O objectivo da escolha do restaurante era ir ao peixe da época e confesso que, estando nós ainda na primeira quinzena de Junho, tinha as minhas dúvidas sobre as sardinhas. Mas reconheço que o receio era injustificado. Vieram de bom porte, já avantajadas, saborosas, com boa textura. Até parece que as sardinhas este ano ganharam com o confinamento - talvez tenham andado menos barcos no mar e elas puderam crescer sossegadas. Estavam muito boas. Como acompanhamento, o Último Porto é tradicionalista: batatas cozidas, salada de tomate, alface, cebola e pimento assado. Na mesa, estão azeitonas temperadas e, quando as sardinhas chegam, vem pão cortado às fatias grossas, para que possam deixar a sua saborosa marca. Uma vez desaparecidas as sardinhas, o pão serve de petisco final. O Último Porto tem uma grande esplanada e duas salas e só está aberto ao almoço, escusa de pensar em ir lá jantar. Como a casa enche com frequência, o melhor é marcar. Estação Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, telefone 213 979 498.

 

 

O autor escreve com a antiga ortografia

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