Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 26 de junho de 2019 às 19:15

A arte do possível

A comissão parlamentar de inquérito aos créditos concedidos pela Caixa Geral de Depósitos e à sua utilização nos acontecimentos do Banco Comercial Português em 2007 e 2008 permitiu voltar a ver protagonistas que derreteram a cera do mel das abelhas com que fizeram as asas.

A FRASE...

 

"Os que, no sector privado ou na política, agiram com cupidez, dolo ou malícia, só serão totalmente identificados dentro de muitos anos."

 

António Barreto, Público, 23 de Junho de 2019

 

A ANÁLISE...

 

A ideia de que "a política é a arte do possível" foi expressa por Bismarck em 1867 mas, talvez porque quem primeiro a usou era um político conservador, a interpretação mais corrente é de que é uma ideia mais fatalista do que cautelosa e prudente, porque em política faz-se o que se pode mas não se escapa nem do peso das circunstâncias nem da limitação dos recursos. Esta é uma ideia que serve para justificar os que já estão no poder, porque se não fazem mais é porque as circunstâncias e os recursos não o permitem.

 

Porém, há uma outra leitura desta mesma frase que nem é fatalista nem uma defesa da inércia. A arte do possível é a capacidade para identificar o possível, para depois estabelecer as estratégias que permitam a concretização desse possível que se identificou. E se esta segunda leitura serve para que quem exerce o poder saiba realizar o que anuncia, também serve para avaliar quem exerce o poder em função do que for a sua capacidade para identificar o possível. Por isso mesmo, também serve para denunciar os que, no exercício do poder ou na campanha para a conquista do poder, não sabem distinguir entre o impossível e o possível. Os que não sabem separar o impossível do possível condenam-se ao destino de Ícaro, que vê o calor do Sol derreter a cera do mel das abelhas com que colou as penas de pássaros para fazer as asas que lhe permitiram sair do labirinto em que estava preso.

 

A comissão parlamentar de inquérito aos créditos concedidos pela Caixa Geral de Depósitos e à sua utilização nos acontecimentos do Banco Comercial Português em 2007 e 2008 permitiu voltar a ver protagonistas que derreteram a cera do mel das abelhas com que fizeram as asas. Só serão totalmente identificados dentro de muitos anos, mas isso é irrelevante, porque nenhuma punição poderá compensar os danos que provocaram. Será mais útil e mais imediato fazer deles exemplos da mitologia política portuguesa: eles são os que nunca souberam nada de política porque não sabem o que é a arte do possível.

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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