Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 22 de abril de 2019 às 22:15

Interior e exterior

Portugal só ganhou quando se abriu ao exterior, na expansão e nas duas fases da integração europeia, nas décadas de 1960 e de 1980. Se quiser empatar, estagnado, já perdeu.

A FRASE...

 

"Se Portugal joga para o empate, perde."

 

Rui Tavares, Público, 19 de Abril de 2019

 

A ANÁLISE...

 

Há quem esteja na política porque tem uma ideia para a sociedade que se candidata a dirigir. Mais importante do que perguntar-lhe qual é essa ideia, será perguntar-lhe por que modos pretende mobilizar recursos e vontades para responder aos problemas da sua época, porque será a sucessão de problemas e a alteração das condições que irão determinar a validade dessa ideia que tem para o país. Todo o mundo é feito de mudança, mas o que espanta é que não continue a mudar como mudava. Ter uma ideia em política só vale se tiver a capacidade para distinguir o possível do impossível perante a mudança das circunstâncias.

 

Há quem esteja na política porque tem interesses a defender, servindo-se das ideias para ocultar as suas intenções efectivas. Esses não reconhecem as mudanças nem estão dispostos a aceitá-las quando a realidade efectiva das coisas as tornam evidentes. Se perdem o contrato que celebraram com os seus protectores, não sabem se voltarão a encontrar quem os sustente. Reforçam a expressão das suas convicções até as tornarem dogmas, dividem em vez de mobilizarem, iludem em lugar de orientarem. Refugiam-se no distributivismo do interior para evitarem a competição com o exterior, promovem os monopólios do Estado para não se sujeitarem à comparação da eficiência e eficácia em mercado competitivo.

 

Uns jogam para ganhar, para promover a mudança ou para responder à mudança, e podem continuar mesmo quando perdem, porque não perdem sempre. Outros jogam para empatar, para continuar o que existe, e vão ser eliminados porque nunca ganham. Uns e outros vão ser confrontados com a mudança mais profunda desde a década de 1940, agora que chega ao fim a época da ordem mundial coordenada pelos Estados Unidos: uma sociedade dividida por confrontos polarizados não pode ser um centro hegemónico mundial. Entre Gorbachev e Trump, o mundo conhecido acabou. Portugal perdeu sempre que se refugiou no interior, distribuindo o ouro do Brasil e as transferências da Europa, expulsando os judeus. Portugal só ganhou quando se abriu ao exterior, na expansão e nas duas fases da integração europeia, nas décadas de 1960 e de 1980. Se quiser empatar, estagnado, já perdeu.

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

pub

Marketing Automation certified by E-GOI