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Opinião
Joaquim Aguiar 13 de Agosto de 2020 às 11:40

O contágio na política

A política depois da peste não poderá pretender retomar os padrões de orientação, os confrontos e as métricas do passado. Terá de ter a humildade e o sentido de convergência de quem avança para um mundo novo - e tendo de pagar os erros cometidos no mundo antigo.

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A FRASE...

 

"Impressiona-me que perante um valor desta dimensão ninguém se tenha preocupado em saber de onde vem tanto dinheiro, em saber quem paga." 

 

Daniel Bessa, Expresso, 8 de Agosto de 2020

 

A ANÁLISE...

 

A peste da covid-19 não provoca só a paralisia das sociedades (o medo do contágio obriga a manter as distâncias) e o congelamento das economias (interrompem-se os fluxos de rendimentos, e se alguns fluxos ainda persistem é por efeito de inércia, já não obedecem à métrica de equilíbrio entre receitas e despesas). O que está a acontecer é a conversão do capital acumulado em dívida, que terá de ser paga - o que só será possível através de elevadas taxas de crescimento e uma forte valorização dos activos através de altos níveis de produtividade e de ganhos de competitividade. Como todas as sociedades e todas as economias têm de procurar o seu ajustamento a esta nova realidade ao mesmo tempo, fica criado um contexto conjuntural (de duração dependente da duração da peste) de luta de todos contra todos, em que perdem e são sacrificados os mais fracos, os que estão mais vulneráveis por efeito dos desequilíbrios que acumularam no passado e os mais hesitantes na interiorização do que tem de ser feito.

 

A peste da covid-19 é o novo TINA, "there is no alternative". E isto significa que, depois da paralisia das sociedades e do congelamento das economias, depois de o capital ter sido transmutado em dívida, é a política que fica contaminada pela peste. As polarizações tradicionais entre direita e esquerda, os debates entre políticas de competitividade e políticas de distribuição são agora sobredeterminados pelas políticas de ajustamento que terão de ser postas em prática para voltar a transformar a dívida em capital. Porque mesmo que se consiga que a dívida seja perpétua e os juros sejam reprimidos na vizinhança do zero, os encargos com a gestão dessa dívida perpétua estarão a prejudicar a acumulação de capital, o investimento e o financiamento das políticas distributivas.

 

É a política que tem de responder às consequências imediatas da crise sanitária - e será mais penalizada do que premiada. Mas o desafio principal que se coloca à política é outro. Mesmo os recuperados da peste ficam com sequelas que diminuem a qualidade e a esperança de vida. A política depois da peste não poderá pretender retomar os padrões de orientação, os confrontos e as métricas do passado. Terá de ter a humildade e o sentido de convergência de quem avança para um mundo novo - e tendo de pagar os erros cometidos no mundo antigo.

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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