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Luís Marques Mendes 09 de Janeiro de 2022 às 21:45

Marques Mendes: "Idealmente, isolados votariam sábado e os outros no domingo"

As novas medidas contra a pandemia são elogiadas por Marques Mendes que critica o "esquecimento" do Parlamento quanto à pandemia e o seu impacto nas eleições. No seu habitual espaço de comentário na SIC, o antigo presidente do PSD analisa também os debates já realizados.

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PANDEMIA E VACINAÇÃO

 

1.     As regras relativas à pandemia voltaram a mudar. Um dia destes temos que andar com um manual de instruções no bolso. Posto isto, há que dizer:

a)     Primeiro: as mudanças são positivas, embora tardias. Era preciso acabar com o excessivo número de pessoas em isolamento. Esta situação estava a dar cabo da saúde mental das pessoas; estava a dar cabo da economia; e estava a ser uma sobrecarga brutal para os médicos e outros profissionais de saúde, sobretudo nos Centros de Saúde.

b)     Segundo: porquê só agora? Porque há eleições à porta. O Governo quis ser simpático com as pessoas, aligeirando as restrições. Em campanha, não se "compram" guerras com os eleitores. As autoridades de saúde, por seu lado, perceberam que não podiam resistir a um número tão elevado de pessoas em isolamento, até por causa do direito de voto.

 

2.     Vacinação de crianças dos 5 aos 11 anos. Boas noticias:

a)     Primeiro: terminou a primeira fase de vacinação. Das 600 mil crianças  elegíveis estão vacinadas cerca de 50%. Um resultado acima da média da UE. Abre-se agora uma nova fase de vacinação (5 e 6 de Fevereiro) para as que não puderam ou não quiseram entrar na primeira fase.

b)     Segundo: Há um dado de informação relevante para as famílias que ainda não decidiram vacinar as suas crianças:

·     Segundo um relatório de 31 de Dezembro do CDC – Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA – em 8,7 milhões de doses administradas a crianças entre os 5 e os 11 anos, só foram reportados 11 casos de miocardite. Só 11 casos. Isto mostra que a vacina é mesmo segura.

 

3.     Terceira dose da vacinação: Bons indicadores: primeiro, a administração da terceira dose já está em velocidade de cruzeiro- 90 mil doses por dia; segundo, 1/3 da população já tem dose de reforço; terceiro, 69% por Portugueses com mais de 60 já têm a terceira dose.

 

OS DEBATES DE ANTÓNIO COSTA

 

1.     António Costa mudou muito em relação a 2019. Em 2019 foi bastante negligente. Tinha as eleições ganhas á partida. Agora, está um verdadeiro profissional. Ganhou os vários debates. A necessidade aguça o engenho.

a)     Está assertivo e acutilante. O debate com Jerónimo de Sousa foi a prova disso. "Matou" o PCP sem dó nem piedade.

b)     Tem uma mensagem política clara e única: esta crise era desnecessária; o país precisa de estabilidade; só uma maioria absoluta do PS pode garantir estabilidade. Parece Cavaco Silva em 1987, depois de uma crise igualmente impopular.

c)     Repete esta mensagem à exaustão. É o que se deve fazer em campanha eleitoral. Repetir a mensagem para que ela "entre" na cabeça dos eleitores.

 

2.     Pontos menos fortes: o debate com Ventura; e o cansaço governativo.

·     Debate com Ventura: António Costa ganhou o debate, sim. Mas baixou a um nível de discussão com um dirigente como André Ventura que um PM não deve fazer. Rui Tavares, do Livre, sem ser PM, foi mais eficaz.

·     Cansaço do Governo: o maior adversário de António Costa nesta eleição não é qualquer partido. É o cansaço da governação. São os seis anos de governo. Não é ano e meio de governo, como Cavaco tinha em 1987. Para muitos portugueses há uma sensação de esgotamento.

 

 

OS DEBATES DE RUI RIO

 

1.     Rui Rio não começou bem a semana mas terminou-a em alta:

a)     Não começou bem: no debate com André Ventura caiu na armadilha de discutir os temas do Chega, designadamente a prisão perpétua, em vez de fazer duas coisas: contrapor com a sua agenda e fazer um apelo ao voto útil. Foi um deslize desnecessário.

b)     Acabou a semana em alta: os debates com Francisco Rodrigues dos Santos e Rui Tavares correram-lhe francamente bem; e a apresentação do Programa Eleitoral foi um momento de boa eficácia política.

 

2.     Rui Rio acabou com a grande fragilidade que tinha: a falta de propostas alternativas. Agora, passou a ter uma política alternativa clara: um "choque fiscal" moderado para promover o crescimento da economia. Uns concordam, outros discordam. Mas o vazio que existia deixou de existir.

a)     Para a democracia é bom haver dois projectos de governação diferentes.

b)     Para o PSD é uma mais-valia. Ser alternativa não pode ser só criticar.

c)     Para o PS é uma dificuldade criticar o "choque fiscal" do PSD, sobretudo no IRC. O que Rui Rio está a propor é o mesmo que António José Seguro, em 2014, acordou com o PSD. É difícil a Costa estar a criticar o seu antecessor.

 

 

ANDRÉ VENTURA E RUI TAVARES

 

1.     André Ventura parece novidade mas não é. O que está a fazer hoje foi o mesmo que fez nos debates presidenciais de há um ano: exibir o treino que adquiriu nos debates sobre futebol. É a futebolização da política. Alguns nichos de mercado gostam. Mas tem três problemas.

a)     Primeiro: dá a ideia de ser uma "picareta falante". No futebol pode resultar. Na política não é credível.

b)     Segunda: é uma overdose de demagogia. Todos os políticos usam a demagogia. Mas abusar dela não é muito rentável.

c)     Terceiro: a sua mensagem cansa. Como os temas são sempre os mesmos suscitam atenção no primeiro debate; passam a ser repetitivos no segundo; e cansam nos seguintes.

 

2.     Rui Tavares, do Livre, é a surpresa destes debates. Primeiro, demonstra preparação e conhecimento; segundo, é assertivo e acutilante sem ser deselegante; terceiro, foi de uma eficácia brutal com André Ventura. Foi o seu momento alto. Derrotou o líder do Chega sem baixar o nível do debate.

·     Goste-se ou não se goste das ideias de Rui Tavares, candidatos com esta qualidade intelectual e política deviam estar no Parlamento.

·     Rui Tavares, à esquerda, e Carlos Guimarães Pinto, da IL, à direita, são dois políticos que mereciam ser eleitos. A democracia plural só ganhava com a presença de cada um deles no Parlamento.

 

 

OS PEQUENOS PARTIDOS

 

1.     À esquerda, PCP e BE têm um problema difícil de ultrapassar: o chumbo do OE e a criação de uma crise altamente impopular. Mesmo assim, Catarina Martins "tem feito pela vida". Tem sido eficaz e aguerrida na defesa das suas mensagens. Já Jerónimo de Sousa é a desilusão. Esta não é, manifestamente, a sua "praia". Falha na forma e no conteúdo.

 

2.     À direita, IL e CDS, fazem um percurso que não é fácil em tempo de forte bipolarização entre o PS e o PSD. Quanto ao CDS, esteve melhor nos debates do que está nas sondagens. Em relação à Iniciativa Liberal, não teve até agora uma presença marcante, mas a sua mensagem está na moda, sobretudo no eleitorado mais jovem e urbano.

 

3.     Finalmente o PAN. Usando uma linguagem desportiva, nem marca golos nem comete faltas. Está a lutar pela sobrevivência e corre o risco de desaparecer. Não é responsável pela crise mas corre sérios riscos com o voto útil. Está em queda livre nas sondagens.

  

 

OS PRÓXIMOS DESAFIOS

 

1.     Primeiro desafio: o debate entre António Costa e Rui Rio. Vai ser um debate diferente do de 2019. No anterior, Rui Rio esteve ao ataque e António Costa à defesa. Rui Rio ganhou o debate. Agora, não se sabe quem vai ganhar, mas uma coisa é certa: ambos vão estar ao ataque. Vai ser um debate vivo. É que, ao contrário de 2019, agora tudo está em aberto e ninguém pode facilitar.

 

2.     Segundo: A campanha vai acelerar mais. Esta é uma eleição atípica: por causa da pandemia vota-se em dois dias e não apenas em um. Não se vota só em 30 de Janeiro. Vota por antecipação em 23 de Janeiro. E, com a pandemia, uma parte grande do país vai já votar daqui a quinze dias. Por isso, os partidos têm de acelerar. Sem esquecer que a partir do dia 15 vamos ter sondagens diárias. Pelo menos, uma. E isso influencia.

 

3.     Finalmente, na próxima semana vamos ter o parecer do Conselho Consultivo da PGR a dar luz verde à votação das pessoas que estão em isolamento. Não podia ser doutro modo. A dificuldade é operacionalizar este direito.

·     O ideal seria fazer a votação em dois dias, sábado e domingo. No sábado votavam os isolados. No domingo os outros. Mas a AR esqueceu-se de "prever" a pandemia.

·     O que vamos ter então? Locais de voto separados para isolados e não isolados, com mesas de voto autónomas. A segurança exige.

·     Se não houver um esclarecimento eficaz, anda corremos o risco de a abstenção aumentar, com muitos eleitores a não quererem ir votar com o receio de poderem ser contaminados.

·     Finalmente, o contrassenso do Governo e da AR: nas autárquicas, onde a pandemia estava mais controlada, votou-se até às 20 horas. Agora, que seria preciso mais tempo, vota-se até às 19 horas. Alguém percebe?

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