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Luís Marques Mendes
12 de Abril de 2020 às 21:36

Marques Mendes: Regresso à normalidade até ao Verão do próximo ano é uma ficção

As habituais notas da semana de Marques Mendes, no seu espaço de comentário na SIC. O comentador fala sobre o balanço da pandemia, as críticas aos bancos, a entrevista de Costa e as decisões do Eurogrupo, entre outros temas.

BALANÇO DA DOENÇA

 

  1. Estamos na fase mais difícil do combate á doença -ou vencemos esta batalha ou deitamos tudo a perder. Porquê?
  • Primeiro, porque ao fim de quatro semanas de quarentena, a fadiga mental e psicológica é enorme.
  • Depois, porque o balanço do combate à doença é muito positivo, o que convida ao abrandamento. As medidas tomadas foram eficazes. O pico já passou. Os serviços de saúde não entraram em Até a imprensa internacional nos elogia.
  • Terceiro, porque, apesar de tudo isto, todos sentimos que ainda não é tempo de facilitar ou de baixar a guarda. Chegados ao ponto a que chegámos, aliviar as medidas cedo demais poderia dar origem a uma forte recaída. É preciso resistir.

  1. Por tudo isso, o PR já anunciou que o Estado de Emergência vai até ao fim de Abril. Fez bem. Mais do que isso: tenho a sensação que, mesmo que esta decisão não fosse tomada e as medidas de isolamento fossem levantadas, os portugueses não voltariam facilmente à rua e aos seus locais de trabalho.
  • Primeiro, porque os portugueses têm medo de uma recaída. E têm razão. A epidemia está controlada mas não está resolvida.
  • Segundo, porque os portugueses são intuitivos – sabem antecipar os comportamentos necessários. Recordo que ainda não havia fecho oficial das escolas e já muitas estavam fechadas; que ainda não havia isolamento obrigatório e já muitos o faziam voluntariamente.
  • Terceiro, porque os portugueses compreendem que um sacrifício maior agora é essencial para evitar novos e mais fortes sacrifícios no futuro.

  1. As autoridades de saúde merecem enorme respeito. Têm uma tarefa muito difícil. Convém, porém, que não tornem ainda mais difícil o que já de si é difícil. Há duas querelas que não fazem sentido: uma, com a comunidade científica, que quer ter acesso aos dados da doença; outra, com os autarcas, a quem deixou de ser dada informação. Nada disto é bom. Gera desconfiança e especulação de falta de transparência.

 

REGRESSO À NORMALIDADE – QUANDO?

 

  1. Começou agora a falar-se em regresso à normalidade. Um exagero. Até termos uma vacina, a expressão "regresso à normalidade" devia ser proibida. É que regresso à normalidade até ao Verão do próximo ano (até termos uma vacina) é uma ficção. Não vai suceder. Não criemos falsas expectativas.

Até lá, até ao Verão de 2021, vamos continuar a ter fortes restrições, mantendo as regras sanitárias e de distanciamento social que hoje conhecemos: temos de guardar dois metros de distância da pessoa que está ao nosso lado; temos de evitar aglomerados e concentrações; temos de evitar o mais possível abraços, beijos e cumprimentos de mão; temos de generalizar o uso de máscaras.

Se não cumprirmos escrupulosamente estas regras, ninguém tenha dúvidas: o risco de um novo surto de Coronavírus é enorme. Seja em Agosto, em Setembro ou no próximo Inverno. E um novo surto é o que é: novos isolamentos, mais perdas de vida. E pode até ser pior que o actual.

Não sou eu quem o diz. São os especialistas que o afirmam. Ou temos cuidado ou o risco transforma-se em fatalidade!

  1. Posto isto, se tudo correr bem, havemos de começar em Maio a aliviar algumas das medidas de contenção. Mas isso vai exigir algumas condições:
  2. Primeiro: gradualismo. Ou o alívio é gradual ou deitamos tudo a perder.
  3. Segundo: suporte técnico. Levantar medidas de restrição não se faz por palpite. Faz-se com orientação técnica.
  4. Terceiro: analisar os exemplos estrangeiros. Avaliar o que fazem os países que vão à nossa frente é de elementar bom senso.
  5. Quarto: fazer uma troca de medidas. Sair de casa tem de ser compensado com outras medidas: mais testes, uso de máscara e até medidas de geo-localização de infetados.
  6. Quinto: manter especial protecção aos grupos de risco (sobretudo idosos).

 

REABERTURA DAS ESCOLAS

 

  1. Já sabíamos que este ano lectivo ia ser atípico e anormal. Dentro da anormalidade, acho que as decisões do Governo foram sensatas e equilibradas:
  2. Ensino básico – Aulas em regime de telescola. É a solução possível. A alternativa era bem pior. Era deixar cada aluno por sua conta e risco.
  3. Ensino secundário – A solução encontrada é razoável. Não há a certeza de quando haverá aulas presenciais, mas há a certeza de haver alguns exames. Evitam-se, assim, duas realidades, ambas negativas:
  • Primeira: não haver este ano ingresso no ensino superior. Era uma desilusão brutal para milhares de jovens. Muito injusto.
  • Segunda: ter passagens administrativas. Outro desastre. Nova injustiça. Não se garantia a igualdade de condições entre os vários estudantes, designadamente entre os do público e os do privado.

  1. Em contraponto a esta decisão, dir-se-á que o Governo não seguiu a proposta dos epidemiologistas e o exemplo de vários países lá fora, que optaram por abrir as escolas dos mais jovens. É verdade. Mas também são verdadeiras duas outras razões:
  • Primeiro: os epidemiologistas seguem estritamente critérios de saúde pública. Só que a decisão política tem de levar em atenção também outros critérios a valores. Neste caso, o da justiça e da igualdade.
  • Segundo: o Governo, mesmo assim, ordenou exigências especiais – o uso de máscara por parte dos alunos e professores e a exigência de distanciamento social. Ou seja: não descurou a saúde pública.

  1. Finalmente, o Pré-escolar. O Governo nada disse sobre o pré-escolar. Mas devia dar alguma orientação, ainda que genérica. Abre, não abre? Quando? Como? Em que condições? Uma orientação faz todo o sentido.

 

AS CRÍTICAS AOS BANCOS

 

  1. Esta semana multiplicaram-se as chamadas de atenção aos bancos. Foi o PR, foi o PM, foi Rui Rio, foram vários dirigentes políticos. Tudo isto se compreende:
  • Dizer mal dos bancos é como dizer mal de políticos e deputados. Dá popularidade fácil.
  • Depois, no passado, os bancos colocaram-se a jeito: ninguém esquece os graves casos de polícia que foram o BPN, o BES e a CGD, que custaram milhões de euros.
  • E mesmo agora, no presente, os bancos abusam muitas vezes nas comissões que cobram aos clientes.

  1. Posto isto, há que dizer: vigilância à acção dos bancos, sem dúvida; exigir que em tempos de crise não distribuam dividendos faz todo o sentido, porque seria uma imoralidade; agora, diabolizar os lucros dos bancos, quase insinuando que é bom que os bancos tenham prejuízos, é de uma grande ligeireza. Eu pergunto:
  2. É bom que os bancos deem prejuízos? Para quê? Para colocarem em risco os depósitos dos portugueses? Para voltarem a entrar em dificuldades e o Estado precisar de meter lá mais uns milhões de euros?
  3. É bom que a CGD dê lucros ou prejuízos? Se der lucros, paga ao Estado os milhões que o Estado lá meteu. Se der prejuízos, o Estado fica a ver navios. É isto o que se deseja?
  4. É bom que os outros bancos tenham prejuízos? Para quê? Para não pagarem ao Estado o que o Estado lhes emprestou através do Fundo de Resolução? É isso o que se pretende?
  5. Numa palavra: os dirigentes políticos devem ter cuidado com o que dizem para não darem más lições no presente e não se arrependerem no futuro.

 

A ENTREVISTA DE COSTA

 

  1. O PM deu mais uma entrevista, desta vez à Lusa. É uma boa entrevista. Quer na política interna, quer na política europeia. O que surpreende, porém, nesta fase da vida nacional é o forte protagonismo mediático do PM. António Costa está diferente. Desdobra-se em tantas declarações, conferências de imprensa e entrevistas que parece estar a copiar o estilo do PR. Porquê?
  • Primeiro, é uma forma de exorcizar o mau desempenho que teve na tragédia dos fogos florestais de 2017. Na altura não esteve bem.
  • Depois, é a forma de ultrapassar a má fase em que estava antes desta crise. Antes eram só problemas (Centeno, divergências com PCP e BE, exercícios de arrogância e autoritarismo). Agora, está tudo adiado.
  • Finalmente, é a forma de acumular popularidade para os tempos que vêm a seguir. Esta crise gera popularidade. O problema é a fase seguinte: a crise económica.

  1. Posto isto, convém não exagerar. Vejamos duas questões:
  2. A primeira é sobre o Estado de Emergência. Nem oito nem oitenta. No princípio, o PM não queria o Estado de Emergência. Agora, parece querer ir mais longe que o PR. Marcelo explica que o Estado de Emergência deve ser renovado até ao fim de Abril. Através do Público, o governo vem dizer que gostava que fosse até meio de Maio. Não há problema em as pessoas mudarem de opinião. Mas convém que a mudança seja credível. 
  3. A segunda é sobre a UE. António Costa é muito duro com a Holanda. Chega a sugerir que este país abandone a Zona Euro. Quanto à substância das críticas, nada a objectar. Mas atenção: dizer estas coisas num Conselho Europeu, cara a cara com o seu colega holandês, pode ser útil para fomentar um debate necessário. Dizê-lo cá fora, na praça pública, receio que tenha mais desvantagens que vantagens – não resolve problema nenhum e pode gerar ainda mais anti-corpos. Em vésperas de Portugal iniciar a Presidência da EU duvido que seja recomendável.

AS DECISÕES DO EUROGRUPO

 

  1. Face às expectativas que existiam é melhor ter acordo que não ter. A alternativa – não haver acordo – seria desastrosa. Mas atenção: o que foi decidido são trocos. São aspirinas para uma doença que carece de um forte antibiótico. Vejamos:
  2. Este programa global ascende a 540 mil milhões de euros. Para os 27 da UE. O programa alemão, só para a Alemanha, é maior – 750 mil milhões.
  3. Medida de apoio ao emprego – 100 mil milhões de euros. Só a França precisa de algo que se estima entre 20 e 30 mil milhões. Ou seja, pelo menos 1/5 só para um país.
  4. Medida para empréstimos aos países – 240 mil milhões. Cada país pode pedir empréstimos até 2% do seu PIB. No caso de Portugal, podemos pedir até 4 mil milhões de euros. Vale a pena recordar que na crise de há 8 anos tivemos um empréstimo de 78 mil milhões. E agora vamos precisar, pelo menos, de 20 a 30 mil milhões de fundos adicionais, face à crise económica e financeira que nos espera.
  5. Ou seja: tudo é curto e insuficiente. Para já, a UE estancou a ferida da desunião. Mas não resolveu o problema de fundo. Limitou-se a adiá-lo.

  1. Ficou no ar uma expectativa: a criação de um Fundo de Recuperação Económica. O nome é desafiante. O conteúdo é uma incógnita. Aqui é que vai estar a prova dos nove. Saber se a UE consegue construir o seu Plano Marshal do século XXI. São muitos os que o prometem. Falta saber se têm vontade política e visão estratégica para o aprovarem. Entretanto, o populismo espreita. Em Itália e não só. É assim que se pode dar cabo da UE.

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