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Miguel Frasquilho 07 de Janeiro de 2014 às 00:01

2014

Em Junho e Julho terá lugar, no Brasil, a "Copa do Mundo de Futebol", onde se falará Português, onde Portugal participará, e onde aposto que Cristiano Ronaldo & Cia. homenagearão a memória de Eusébio e tudo farão para nos dar mais um motivo que torne 2014 um ano de boa memória.

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Eis-nos no início de 2014, o Ano Chinês do Cavalo, cujos nativos são, em geral, sociáveis e energéticos, mas também impacientes. Que nos reservará o novo ano?

Das efemérides que serão evocadas escolho três, a que atribuo grande significado: em Portugal, assinala-se o quadragésimo aniversário do 25 de Abril, que nos tornou uma democracia; a nível global, celebra-se o quarto de século da queda do muro de Berlim (que, simbolicamente, marcou o fim dos regimes comunistas no leste europeu) e o centenário do início da I Guerra Mundial (que mais é preciso acrescentar?...).

Na esfera política, vários actos eleitorais serão determinantes à escala global. Salientam-se os que ocorrerão nos 2º, 3º, 4º e 5º países mais populosos do mundo, respectivamente, Índia (eleições legislativas, Maio), EUA (eleições intercalares para o Congresso, Novembro), Indonésia (eleições presidenciais, Julho) e Brasil (eleições presidenciais, bem como legislativas federais e estaduais, Outubro). Destaca-se, ainda, o referendo em que a Escócia decidirá se se torna independente do Reino Unido (Setembro). As sondagens mostram que uma vitória do "sim" seria surpreendente – e poderia ter efeitos imprevisíveis sobre outras regiões/países (como, entre outros, a Catalunha e o País Basco em Espanha, ou o Quebec no Canadá). E até as geralmente pouco interessantes eleições para o Parlamento Europeu (Maio) terão, desta vez, o aliciante de poderem abanar o status quo no nosso Continente, se forças extremistas nacionalistas e eurocépticas ganharem um peso até há pouco tempo considerado improvável. Um reflexo da forma como tem sido conduzido o combate à crise das dívidas soberanas da Zona Euro?...

Na economia, as notícias deverão ser melhores do que em 2012 e 2013, com as projecções a apontarem para um crescimento global mais elevado e também mais equilibrado: o dinamismo dos países emergentes continuará, evidentemente, a ser maior do que o das economias avançadas – mas menos do que em anos anteriores. No Ocidente, quer os EUA, quer a Europa deverão mostrar um maior vigor económico, com (bem) maior dinamismo dos norte-americanos, o que deverá levar a uma actuação diferenciada dos respectivos bancos centrais: o Fed – liderado, pela primeira vez, a partir de Fevereiro, por uma mulher, Janet Yellen – começará a retirar progressiva mas lentamente os estímulos à economia (ainda sem subida dos juros); na Zona Euro (onde a Letónia passou a ser o 18º Estado-membro), a mais débil recuperação prevista deverá levar o BCE a não dar, tão cedo, quaisquer sinais de alteração das actuais condições monetárias expansionistas.

Para Portugal, 2014 será, em minha opinião, um ano com vários motivos para nos animar e deixar esperançados num futuro melhor.

A melhor conjuntura internacional dinamizará (ainda mais) as exportações e ajudará 2014 a ser o primeiro ano não recessivo desde 2010 – o que já não é coisa pouca!... –, consolidando o crescimento que regressou desde que, no segundo trimestre de 2013, a economia passou a adicionar riqueza à que tinha sido criada nos três meses anteriores. Boas notícias que permitirão, por certo, desejadas melhorias no mercado de trabalho – apesar da austeridade adicional que consta do OE’2014, muito concentrada na esfera pública (única forma de reduzir o – excessivo – peso da despesa pública, torná-la sustentável e libertar a sociedade do sufoco fiscal em que se encontra) e, dessa forma, prejudicando menos a economia como um todo.

E 2014 marcará, também, a 17 de Maio, o fim do Programa de Assistência Económica a Financeira (PAEF) a que estamos submetidos desde Maio de 2011, por razões de todos conhecidas. Um PAEF que, creio, acabará bem. Porquê?... Porque não só é do nosso interesse (claro!), como interessa, também, à Europa e à Troika: ninguém deseja uma "segunda Grécia" – e todos desejariam uma "segunda Irlanda". Um factor que, naturalmente, agora que a credibilidade perdida em 2011 está a caminho de ser recuperada, deve ser por nós usado para conseguir condições realistas (que até agora nos faltaram, incluindo no tempo para reduzir o desequilíbrio das contas públicas) para cumprir o necessário desendividamento. E será uma saída "limpa" (a la Irlanda) ou com um Programa Cautelar?... O nível dos juros que continua a ser pedido pelos investidores para financiarem a dívida pública portuguesa indicia que um Programa (Cautelar) que apoie o nosso regresso progressivo ao financiamento em mercado é, ainda, o cenário mais provável. Mas em cinco meses acontece muita coisa – e as melhores notícias na economia e nas contas públicas (em 2013, o défice público terá sido inferior ao objectivo, ao contrário do que tem sido usual) aumentarão a confiança dos investidores (reduzindo os juros), pelo que creio ser prematuro descartar a possibilidade, ainda que reduzida, de Portugal poder imitar a Irlanda... Porém, a boa notícia que constitui, sem dúvida, o fim do período de resgate, não significa facilidades a partir daí, mesmo admitindo que o cabo das tormentas já terá sido dobrado: afinal, temos objectivos orçamentais a cumprir, estipulados no Novo Tratado Orçamental Europeu, e a consolidação orçamental está longe de ser concluída – pelo que algum tipo de condicionalidade, com ou sem Programa Cautelar, será sempre a realidade que nos espera.

Uma nota final para referir que 2014 será marcado, a nível global, por dois eventos desportivos (um dos quais nos dirá muito). Em Fevereiro, terão lugar os Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi, na Rússia – que já detêm, pelo menos, o "record" de serem (de longe...) os mais caros de sempre. Em Junho e Julho terá lugar, no Brasil, a "Copa do Mundo de Futebol", onde se falará Português, onde Portugal participará, e onde aposto que Cristiano Ronaldo & Cia. homenagearão a memória de Eusébio e tudo farão para nos dar mais um motivo que torne 2014 um ano de boa memória. Feliz ano novo, caro leitor!...

Economista. Ex-Secretário de Estado do Tesouro e das Finanças

miguelfrasquilho@yahoo.com

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