Dançar primeiro, pensar depois: "Ah, Os Dias Felizes" de Samuel Beckett no Teatro Nacional São João
Passamos a vida cheios de razão, a dizer mal disto tudo. Melhor ainda, com mais egotismo
Passamos a vida cheios de razão, a dizer mal disto tudo. Melhor ainda, com mais egotismo: passamos a vida tão inflamados das promessas e desilusões do consumo, que vivemos convencidos de que os outros dizem demasiado mal disto tudo, e que há que - por isso mesmo - dizer mal disto tudo. Por causa dos outros, claro, todas as responsabilidades são órfãs. Como nas Finanças.
Dancemos para fora do quadrado da realidade diminuída pelas linhas editoriais e relaxemos a sério, sem sequer nos torcermos todos no ioga ou a suar na passadeira; esqueça lá os ginásios, os SPA, os Shoppings e outros foguetes que a televisão inventou para nos distrair dos vazios da alma. Esqueçamos os jornais, os Passos, os Silvas, e tratemos de nós, que somos a Economia; visitemos a redenção da civilização devastada, (d)escrita pelo Nobel Samuel Beckett, irlandês marmóreo, cujo silêncio - atlântico, periférico, insular, quase ensimesmado - podia bem ser o nosso. É no Teatro Nacional do Porto, o São João; o "Manual de Leitura", publicação informal, extremosa e gratuita - se calhar, uma das mais antigas, regulares e válidas edições de cultura do panorama português - esclarece e contextualiza, melhor do que qualquer coisa que se pudesse aqui escrever, a pertinência programática desta produção. O "link" está ao fundo da página; o Teatro, esse, é na Batalha, junto a Sta. Catarina, em plena baixa do Porto.
O espectáculo "Ah, os dias felizes", de Samuel Beckett, estreou na passada sexta-feira no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém e apresenta-se hoje em casa, no palco do Teatro Nacional São João, onde pode e deve ser visto até ao dia 29. Com encenação de Nuno Carinhas, esta produção conta com algumas cumplicidades que fazem o habitual serviço público da casa brilhar sem ruído. E não há troika que lhe tire o sentido: em cena, Emília Silvestre e João Cardoso, que encarnam os dois personagens da peça, mas não só. Transportam consigo mais-valias que não estão à venda; Emília Silvestre é membro do Ensemble - Sociedade de Actores que (em modelos diversos de co-produção e/ou produção própria), trouxe à cena - com encenação do agora Director Artístico do Teatro São João - algumas pérolas da dramaturgia moderna e contemporânea, como "Molly Sweeney" (1999), do também irlandês Brian Friel; João Cardoso pertence à Companhia Assédio e participou nessa outra obra-prima de Friel que é "O Fantástico Francis Hardy, curandeiro" (em 2000). As palavras de Beckett com que dirão "Ah, os dias felizes" são traduzidas por Alexandra Moreira da Silva; os desenhos de som e luz são, respectivamente, de Francisco Leal e de Nuno Meira. Da mão de Nuno Carinhas nascem então a escolha programática, a encenação, o cenário e os figurinos.
"Penso que Beckett contraria sempre aquela nossa necessidade de perceber tudo, de termos explicações para tudo, e muitas vezes perdemos a oportunidade de sentir. A experiência para quem vê objectos cénicos destes, poemas destes em cena (…) é tão extraordinária, que as especulações sobre o que significam devem vir depois, ou não vir de todo", diz Emília Silvestre, uma actriz cujas performances, por regra, se inscrevem na realidade melhorada.
Depois de Beckett, havemos de voltar ao ioga, ao Passos e ao Silva, mas com uma pequena diferença; sabemos que há momentos estruturados em que essas evidências, facilmente decifráveis, se reduzem à importância que têm: nenhuma. O Teatro inscreve-se sempre no lado mais civilizado da História, onde só se correm riscos por razões mais nobres do que a infame venalidade; a mediocridade dos poderzecos moribundos, alimentados pelo ventilador artificial dos media, desfaz-se em átomos irrelevantes, ao subir da cortina. "Dançar primeiro, pensar depois; é a ordem natural" dizia Beckett em "À espera de Godot". Em Teatro, o credor da dívida impossível é o prazer que não tivemos.
P.S.: Outra obra eventualmente prima do mesmo Beckett, "À espera de Godot", com encenação de Carlos Pimenta, estreou na 5.ª feira, dia 14, no Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa, seguindo para o São João a partir de 9 de Janeiro. "Coisas de que se pode falar", conversa à volta de "Ah, os dias felizes" moderada por Rui Lage, com a presença de Ana Cristina Leonardo, Carlos Quevedo, Pedro Mexia e Nuno Carinhas, tem lugar no TNSJ pelas 16:30 do próximo dia 23 de Novembro.
O "Manual de Leitura" para "Ah, os dias felizes", está aqui www.tnsj.pt/home/media/pdf/manualdeleitura ahosdiasfelizes.pdf
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