"Meet Lolo Jones" - uma história portuguesa
Vivemos dias assim, em que nos habituámos a tomar por normal tudo e mais alguma coisa, desde que legitimado pela popularidade mediática. Movemo-nos na pasta espessa das evidências, sem ideias.
Não deve haver muitas sociedades que, como a americana, tenham uma tal capacidade de regenerar e progredir. Entre o momento em que Rosa Parks decidiu desobedecer à segregação instituída, e sentar-se onde bem lhe apeteceu num autocarro - leia-se, na zona dedicada aos brancos - e até à eleição do primeiro presidente negro, passaram uns historicamente insignificantes 54 anos (entre 1955 e 2009). É certo que ser uma nação anglófona, ter o maior exército do mundo e uma riqueza bruta incomparáveis, dá jeito; mas, no que toca a estas dinâmicas de mudança - às quais a Europa parece estar completa e inconscientemente alheia -, estou convencido de que são os tribunais e as universidades americanas quem mais contribui. Ah, e os media.
Ainda esta semana, Paul Krugman discorria sobre o aquecimento global no The New York Times, a propósito deste incontornável facto: 2014 foi o ano mais quente de sempre no nosso "3.º calhau a contar do Sol". Depois de apresentar dados com um talento que eu próprio não possuo (deixo-vos o "link" em baixo), Krugman ironiza: "Irão agora os detractores do aquecimento global mudar de opinião? Claro que… não." "O facto é que vivemos numa era política em que os factos não contam. Isto não quer dizer que aqueles que se preocupam com as provas devam deixar de as procurar."
Apresento-vos Lolo Jones, americana, "media darling", e atleta de alta competição no atletismo de velocidade. Lolo Jones é um fenómeno só possível no século XXI: Lolo não ganhou quase nada, no entanto, não há capa - incluindo a de publicações de respeitinho como a Time - onde não tenha aparecido. Isto, mesmo depois de fracassos rotundos, piorados apenas pela ousadia das explicações absurdas da própria, como nos Olímpicos de Pequim de 2008 e nos de Londres de 2012. Claro que cada um faz com a sua imagem o que bem entende, e quem gosta, gasta, e quem não gosta, come menos; Lolo, por exemplo, acha que estamos interessados em saber que ela é virgem, assunto ao qual recorre para criar agenda e notoriedade com frequência. Também já posou nua, mas o problema não é a discussão - embora essa também fosse interessante - sobre os limites do liberalismo no que toca ao multimilionário negócio a que se chama desporto. A questão é muito mais delicada, e entronca em Rosa Parks e Obama, pois é uma questão racial e, portanto, de iniquidade. O mesmo The New York Times, em que escreve Paul Krugman, escrevia em 2012, nas vésperas do que seria mais um fracasso Olímpico para Lolo, que ficou a ver as suas compatriotas Harper e Wells a ganharem prata e bronze: "O facto é que Jones recebeu mais publicidade do que qualquer outro atleta americano presente nestes jogos. E isso baseou-se não nas suas conquistas, mas na sua beleza exótica e na sua triste e cínica campanha de marketing. Basicamente, Jones decidiu ser tudo e qualquer coisa que você queira que ela seja - portanto, virgem ou vítima."
É um lugar-comum dizer que a imagem é tudo. Sim, como é um lugar-comum dizer que há muita corrupção ou que chove no Inverno; vivemos dias assim, em que nos habituámos a tomar por normal tudo e mais alguma coisa, desde que legitimado pela popularidade mediática. Movemo-nos assim na pasta espessa das evidências, sem ideias. Em boa verdade, e voltando a Krugman, há muito que deixámos de elencar factos ou de construir um bom debate. E quando assim é, os tempos só podem ser de irresponsabilidade. Sem fulanizar, peço-lhe que faça o seguinte exercício: elabore uma lista com as principais figuras dos três partidos candidatos a líderes dos respectivos e/ou putativos escolhidos para serem candidatos às eleições presidenciais; a seguir, enumere quantos deles têm ou tiveram espaços de opinião desprovidos de qualquer contraditório, em formato "programa" ou "entrevista". Depressa chegará à evidência: 2015, tudo indica, será um ano como os outros. Porque a tal Democracia discute-se em toda a parte, mas só se funda onde há critério, lógica, factos e contraditório. A história de Lolo Jones podia ser portuguesa.
"Hating good government", Paul Krugman, NYT, 18.1.15
http://www.nytimes.com/2015/01/19/opinion/paul-krugman-hating-good-government.html?referrer=
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