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Pedro Santana Lopes 06 de Novembro de 2020 às 10:48

Desregramento

O mundo precisa de equilíbrio face à onda destruidora dos pilares da nossa civilização e aí Trump estava mais do lado que prefiro. Biden, por outro lado, pode estabilizar mais determinadas áreas sociais mas falta-lhe a firmeza que sobra em Trump.

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O que se está a passar com as democracias é altamente preocupante. Por uma razão ou por outra, vamos assistindo à denegação de direitos fundamentais para os cidadãos e à preocupação com outros que não são reclamados por praticamente ninguém. A pandemia trouxe o estado de calamidade e o estado de emergência mas a democracia, em muitas paragens, vive em estado de sítio permanente.

 

Aquilo a que assisti, desde ontem à noite - para não falar nas semanas e meses anteriores- na cobertura das eleições americanas é próprio de tudo menos de um Estado de Direito. Ganhe quem ganhar e independentemente de preferências, é revoltante assistir a tão chocante parcialidade. Segui tudo na CNN, apesar daquilo que a CNN tem sido, nos últimos anos. Devo dizer que pareciam os locutores dos relatos ou transmissões dos jogos dos clubes grandes em Portugal, que quase nunca falam dos clubes que os defrontam. Usam sempre expressões como: "se o Benfica (ou o Porto ou o Sporting) quer ganhar, tem de arriscar mais."; ou, " não está fácil para o Porto... Nunca dizem o Vitória ou o Braga ou o Belenenses, se querem ganhar... Falam sempre como se o outro clube fosse estrangeiro.

 

Assim se passou ontem à noite. Nunca vi nada assim. Quase só falavam do que era preciso para Joe Biden ganhar. Enquanto o democrata liderou a contagem na Florida não largaram esse Estado porque era vital, essencial, fundamental: quando o candidato republicano passou para a frente, nunca mais quiseram saber dessa parte do Sunbelt. E assim foi também com o Texas: enquanto Biden ia à frente deliraram que podia ser uma grande surpresa e com 38 grandes eleitores; Trump passou para a frente e o Texas sumiu. E assim foi também com o Ohio. E quando faziam pontos de situação – "alert key race" e "magic screen" - nem falavam desses Estados maiores em que Trump liderava. E certamente não foi indiferente, durante parte da emissão, o facto de ainda haver pessoas a votar na costa Oeste, nomeadamente no grande Estado da Califórnia. E depois, os comentários constantes, os apartes, o enfado com que se referiam ao atual Presidente. Manda a verdade dizer que Donald Trump também abriu guerra com os jornalistas e lhes dirige as piores ofensas mas o dever de informar com isenção tem sempre de ser respeitado.

 

Esta censura à cobertura da noite (e do dia) eleitoral nada tem a ver com apoio a um ou a outro. Nas anteriores eleições, disse publicamente que votaria em Hillary Clinton, se fosse cidadão dos EUA. Nestas, se aprecio várias das medidas e políticas do ainda Presidente, nomeadamente no campo económico, e também a sua coragem, censuro fortemente outras, como, por exemplo, no respeito pela diferença. Entre outras razões, a questão da separação dos filhos de pais emigrantes impedir-me-ia de votar Trump. Biden, em princípio, poderá tranquilizar mais o mundo, a ONU e outras entidades mas o seu partido está cada vez mais tomado pelo esquerdismo populista. O mundo precisa de equilíbrio face à onda destruidora dos pilares da nossa civilização e aí Trump estava mais do lado que prefiro. Biden, por outro lado, pode estabilizar mais determinadas áreas sociais mas falta-lhe a firmeza que sobra em Trump.

 

A minha indignação com a cobertura informativa não é, pois, por facciosismo. É exatamente ao contrário: não gosto de facciosos nem de batoteiros, nomeadamente se é suposto serem jornalistas. Não podemos estar "entregues aos bichos" ou, de outro modo, isto não pode ser pior do que na selva.

 

É uma pena esta evolução até porque tudo isto acontece, e passa logo, como se nada tivesse acontecido. Onde irá parar este desregramento?

 

PS: Quanto às sondagens "nacionais" sobre a eleição, nem vale a pena falar. Entre cinco a dez pontos de diferença, no mínimo.

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