Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 20 de junho de 2018 às 21:13

Uma causa justíssima

Fará sentido Portugal rejeitar alguns milhões de passageiros por ano porque o aeroporto de Lisboa, nomeadamente, tem a capacidade mais do que esgotada?

E o que é extraordinário é que esta situação continua a arrastar-se. Está definido, em princípio, o caminho de Lisboa mais um no Montijo, mas ainda não estão concluídas as negociações com a operadora concessionária, os franceses da Vinci. O tempo vai passando e agora aponta-se lá para 2022. Ora, até lá, quantos milhões de passageiros deixarão de vir até Portugal só porque não há aeroporto que os receba? Parece mentira, mas é verdade. Os países fazem campanhas de promoção enormes, disputam entre si o mercado mundial do turismo e depois há um que se dá ao luxo de desperdiçar milhões de dormidas por ano. Não é por isso que defendo (há muitos anos) a abertura ao tráfego civil da base de Monte Real. Nem tenho a ilusão de que todos os que não vêm a Portugal, por não haver mais voos disponíveis para Lisboa, pudessem passar todos para essa base, até aqui só militar. Mas, naturalmente, seria um contributo e um importante contributo.

 

 Participei, nesta segunda-feira, por convite dos organizadores, nomeadamente o presidente da Câmara de Leiria, Raul Castro, num fórum dedicado a essa causa. Nele estiveram presentes autarcas de vários distritos do Centro, empresários, responsáveis do setor educativo, e muitos cidadãos em geral que quiseram saber o que se passa com este assunto. Nele foi apresentado um estudo da Roland Berger em que se faz, entre outras, uma análise comparativa com outros aeroportos ou aeródromos de estatuto semelhante ao que se pretende para Monte Real, incluindo o aeroporto de Lourdes, em França, também muito procurado pelo turismo religioso. Tratou-se de um exercício bem útil, a vários títulos, que dá força ao projeto da nova infraestrutura. Naturalmente, não ponho em causa os direitos da concessionária da exploração de vários aeroportos portugueses e esse caminho tem de ser com ela negociado. Mas o que não pode continuar a acontecer é que o desenvolvimento do país seja gravemente prejudicado por se continuar a não fazer aquilo que é óbvio que deve ser feito.

 

Naturalmente, a Roland Berger apresentou também o estudo económico sobre a exploração desse futuro aeroporto regional internacional, com contenção na previsão de receitas e realismo na previsão das despesas, quer para o investimento inicial quer para a exploração. Como é sabido, por exemplo, nas Lajes, também tem vigorado o modelo em que se compatibiliza o uso militar e o uso civil, e foi exibido, a esse propósito, um depoimento do presidente da Câmara do respetivo município. À partida, não se descortina nenhum argumento que impeça a concretização deste projeto, a não ser o conservadorismo bacoco ou a brutal inércia do centralismo lusitano. Lisboa tem o seu aeroporto, o Porto também, o Algarve também, até o Alentejo já tem, ainda que com pouco uso, mas já podendo ser utilizado. Por que razão a importantíssima região Centro não tem direito, sabendo-se como se sabe, à importância que, por exemplo, tem o tempo de transfer para as opções que são formuladas por cada turista quando faz as suas escolhas? Esta causa não impede a consideração que é devida à existência de outras infraestruturas, aeródromos ou outras, em toda aquela área do Centro do país. Viseu, por exemplo, tem estado a investir fortemente no desenvolvimento do seu aeródromo que tem um movimento cada vez mais significativo.

 

Para Monte Real, em termos de investimento inicial, para melhoria da pista, para o hangar, para o armazenamento de combustível, para a placa de estacionamento entre outros, estamos a falar de um investimento inicial de cerca de 20 milhões de euros. Como se compreende, trata-se de um montante suportável por parcerias entre os muitos municípios interessados neste projecto, entidades privadas e financiamentos internacionais. Deve ser dito ao Estado central que não se quer um cêntimo do seu orçamento. A unidade supradistrital que se sentiu naquele teatro de Leiria, é o elemento essencial para que, desta vez, esta causa triunfe mesmo, a bem, não só daquela região, mas de todo o Portugal.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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