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Rui Patrício 06 de Julho de 2020 às 18:38

Joelhos estúpidos e violentos, para lá de Minneapolis

Nada é só preto ou branco, e muito menos o é pelo decreto autocrático de um ou alguns ou pela tirania da gritaria ou da violência de muitos.

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Há coisas que tenho por simples e claras. Primeira, o racismo é errado, condenável e estúpido. Sempre existiu, e ainda existe, e posso até suspeitar de que continuará a existir, na medida em que constitui uma forma de forjar identidades (tantas vezes assassinas, para usar o título de Maalouf) e de criação do inimigo (para usar o de Eco), e quer a elaboração de identidade quer a eleição de inimigo são, infelizmente, uma tentação forte da natureza humana. Vamos melhorando, mas não o suficiente, e muitas vezes regredimos, mimetizando e recriando a história, aqui sempre como tragédia. E a raça – tal como outros elementos que deveriam ser indiferentes para a definição do ser-pessoa – foi, é ainda e poderá continuar a ser um poderoso aliado das perversas narrativas identitárias, discriminatórias, segregadoras, produtivas, defensivas, et cetera. E o erro, a condenação e a estupidez associados ao racismo, ou à eleição de outro fator injustificado de diferenciação, tornam-se muito piores quando a isso se associa a violência, a repressão e a desumanização. A escravatura é um exemplo óbvio e poderoso, embora essa perversão, velha de milénios, nem sempre tenha tido por base a raça. Mas teve-a em larga escala, é inquestionável. Como inquestionável é também que as sociedades modernas, mesmo as mais “esclarecidas”, ainda são racistas, seja porque têm fenómenos e comportamentos conscientes diferenciadores com base na raça, seja porque existe ainda um profundo mar inconsciente de pensamento, linguagem e atitude com marca racial, filho de séculos de solidificado magma identitário.

Dito isto, e com todas as letras, igualmente digo, com a mesma tentativa de clareza, que me parece errado e estúpido banir monumentos ou outras coisas por razões ligadas ao combate ao racismo. Se tal for feito por meios democráticos, com uma legitimação pelo procedimento, menos mal, embora me continue a parecer errado e pouco inteligente. E se for feito através do vandalismo e da violência, pior ainda. Não resolve nada, até pode agravar as questões, e cria outras. Vamos por partes. Não resolve nada, essencialmente por três razões: uma, a história e a arte não se apagam, e a sua tentativa de apagamento pode dar emendas piores do que o soneto, porque para combater e melhorar ou superar o que foi é preciso ter presente, precisamente, o que foi; cumpre é esclarecer, contextualizar, abrir horizontes, perspetivar, ensinar, desconstruir. Outra, porque cada coisa não é uma coisa só, mas um poliedro, e cada pessoa idem aspas, e não se definem apenas por um aspeto, nem por um facto, nem por uma faceta, pelo que banir e apagar porque há comprovado ou possível traço de racismo é também banir e apagar outros traços. Terceiro, porque não há critério elegível para decidir o que se bane ou apaga ou não, por uma razão chã e universal, que consiste em que nada nem ninguém está isento de pecado. Para ser coerente, era preciso banir tudo, apagar tudo, começar do zero, como num novo dilúvio universal, mas sem arca, porque mesmo a arca salvífica levaria sempre traços identitários, escolhas, inclusões e exclusões. Toda a história, toda a arte, todo o mundo se fez pelo bem mas também pelo mal, uns contra os outros, uns sobre os outros, uns dentro e outros fora, pelo que em verdade e em coerência tudo teria de ser banido e apagado.

Por outro lado, pode agravar as questões, e gera outras, sobretudo pela via da violência e do vandalismo, na medida em que, primeiro, em vez de discussão e pluralismo, se cultiva a força pela força, o maniqueísmo, e, mais grave ainda, dá-se alimento à demagogia, ao populismo e, também, ao mar inconsciente de assassinas identidades que ainda há em todos nós (nuns umas, noutros outras). Violência gera violência, precipitação gera precipitação, turba gera turba, grito gera grito, e por aí fora. Segundo, banir e destruir monumentos ou obras de arte, tal como excluir pessoas por isto ou por aquilo, não é muito diferente, na mesma matriz de (ir)racionalidade, do racismo, porque assenta igualmente numa visão de exclusão, de identidade, de bons e maus, amigos e inimigos, piores e melhores, superiores e inferiores, e isso não é muito diferente (da perpetuação) do discurso e da narrativa da diferença como fator de perversão hierárquica da relação entre as pessoas e de construção opressora de uma vida em comum. Terceiro, a lógica da violência e do vandalismo é uma má resposta, e uma resposta estúpida, ao mal e à estupidez que se pretende denunciar e combater, não só porque significa que se não aprendeu que o conflito se gere com freios e contrapesos e com mecanismos de discussão aberta e plural e de procura de consensos na diferença de ideias (e na indiferença por pretensos traços identitários, raciais ou outros), mas também porque se perpetua a ideia – de um pobre e perigoso mundo a preto e branco (e quero mesmo dizer a preto e branco, não significando raça mas sim paleta de cores e de representações) – de que podemos, com a força de um joelho, a violência de um chicote, a estupidez de um balde de tinta ou a queima de um livro viver bem uns com os outros. Não podemos. Há violências e estupidezes que são piores do que outras, evidentemente, e umas muito mais trágicas do que outras nas suas consequências, mas a raiz não deixa de ser a mesma. Nunca aprendemos, na nossa ilusão de que o simplismo conduz à segurança e à liberdade. Não conduz. Nada é só preto ou branco, e muito menos o é pelo decreto autocrático de um ou alguns ou pela tirania da gritaria ou da violência de muitos.

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