O sistema financeiro mundial no olho do furação

Para além da economia, também o sistema financeiro mundial tem de se ajustar a um mundo a desagregar-se em blocos, sem confiança e sem uma ordem legal estabelecida.

O ano de 2025 foi marcado pela maior transformação da ordem geopolítica global desde o início da década de 90, quando terminou a Guerra Fria com a dissolução do Pacto de Varsóvia e desmembramento da União Soviética e se aprofundou o processo de globalização. Este aprofundamento foi feito com base numa ordem mundial em que os EUA, como potência dominante, eram o garante da estabilidade num sistema de regras cuja arquitetura fora desenhada no rescaldo da 2.ª Guerra Mundial. Em 2025, os EUA sob a administração Trump tornaram-se uma potência isolacionista e imperialista, sem respeito pelo direito nacional ou internacional, sem respeito pelos direitos humanos, e sem respeito pelos seus aliados históricos. Uma potência que renega a arquitetura que montou e liderou durante 75 anos e se rege pelos caprichos e (i)moralidade do seu Presidente. Trump provavelmente foi longe demais ao ameaçar militarmente a Gronelândia, território que, apesar de ter uma autonomia especial, pertence à Dinamarca, membro da Nato e aliado histórico dos EUA. E digo longe demais pois a liderança militar dos EUA não aceitará atacar um país aliado sem autorização do Congresso americano, o qual tem a autoridade constitucional para declarar guerra e paz. E o Congresso não dará essa autorização. No entanto, Trump pode, como é seu hábito, esticar a corda da lei e do seu poder o mais possível, e aproveitar-se das autorizações que já tem de colocar tropas e presença militar na Gronelândia, fazendo-o de forma agressiva e desrespeitosa em vez de colaborativa.

A quebra de confiança que estas ameaças provocam é tão grande que há já danos irreparáveis na aliança atlântica. O nível de risco geopolítico está em máximos e a China tem sido o adulto na sala, a única potência que tem sabido lidar com Trump numa posição de firmeza, que é a única forma de lidar com um "bully". No entanto, apesar deste contexto perigoso e da percepção de risco elevado, as economias mundiais continuam a crescer a bom ritmo e os mercados bolsistas estão em nível recorde na maior parte dos países, alimentados por expetativas otimistas de crescimento de lucros e descida de taxas de juro. A festa dos mercados parece estar para continuar. Há um sentimento generalizado de FOMO - "Fear of Missing Out" em relação à subida das cotações acionistas. Este contraste entre a realidade perigosa do mundo e a realidade otimista dos mercados faz lembrar a fase do olho do furacão – momento benigno de acalmia aparente antes da chegada dos ventos ciclónicos. O sinal de que as coisas não estão bem é a subida vertiginosa em 2025 dos metais preciosos – ouro, prata, platina, o que revela uma vontade de diversificar as reservas dos bancos centrais em ativos de refúgio diferentes do dólar americano.

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O sistema económico mundial está-se a ajustar a esta nova ordem mundial e estes ajustamentos económicos tendem a ser lentos, mas inexoráveis - diversificação de mercados, reconfiguração de cadeias de valor para fazer face à incerteza, e foco em controlo de atividades estratégicas dentro de blocos económicos seguros. No futuro veremos as transações económicas a serem feitas crescentemente dentro de cada bloco económico, até pelo efeito das tarifas interbloco, da incerteza e da perda de confiança. Isso acontecerá mais depressa nas áreas de "procurement" estratégico, nomeadamente transações ligadas à segurança, defesa e serviços digitais.

Para além da economia, também o sistema financeiro mundial tem de se ajustar a um mundo a desagregar-se em blocos, sem confiança e sem uma ordem legal estabelecida. E para complicar o processo, os ajustamentos financeiros podem ser muito rápidos, gerando crises súbitas e alterações de valor profundas. O que se pode esperar para 2026? Um dos pontos de tensão é o desequilíbrio estrutural da economia americana. Com um défice da conta-corrente de 4%, um défice público de 6% e um "boom" de investimento digital, a economia americana precisa de atrair financiamento de mais de 10% do PIB. Com uma dívida pública que já ascende a 125% do PIB será que consegue atrair mais capital sem um elevado aumento das taxas de juro, num contexto de quebra de confiança generalizada nos mercados e no governo americano? Provavelmente não, e a alternativa é manter taxas de juro baixas e emitir mais moeda através da compra pela reserva federal de títulos do tesouro. Essa monetarização da economia iria muito provavelmente gerar inflação e levar a uma perda de confiança no dólar americano (o temido “debasement” do dólar), mas pode ser a estratégia a seguir pela administração Trump se conseguir controlar a política monetária da reserva federal.

Para complicar a situação americana, Trump anunciou que em 2027 iria pedir um aumento de 50% nos gastos com a defesa, ou seja, mais 500 mil milhões de dólares. Será que os adversários da América, como a China, e mesmos os magoados aliados europeus estão disponíveis para financiar as aventuras militares de Trump, as quais se podem facilmente virar contra eles próprios? E será que querem ter ativos na moeda de um país que não respeita regras nem leis e só se guia pelo seu próprio interesse, tendo poder e vontade para impor esse interesse de forma unilateral? Não parece uma política sensata para qualquer investidor soberano, pelo que a probabilidade é 2026 ser mais um ano de redução da compra de títulos do Tesouro americano pelos bancos centrais de todo o mundo, num continuado esforço de diversificação de ativos de refúgio que tem levado à progressiva valorização dos metais preciosos e a um prémio extra para emissão de dívida americana.

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O outro desafio mais estrutural é a blocalização do sistema financeiro em três grandes blocos ou ecossistemas de influência: o sistema americano; o sistema europeu, que se vai tentar dissociar do sistema americano e trazer consigo as democracias liberais; e o sistema chinês, que já se estava a afirmar como alternativo apoiado nos BRICS. Esta blocalização quer dizer que o dinheiro tenderá a circular dentro de cada bloco e não entre blocos e as transações serão feitas na moeda do bloco e não apenas em dólares americanos. Isso quererá dizer também um progressivo desligar dos pagamentos europeus das plataformas geridas por empresas americanas, nomeadamente a VISA e Mastercard, garantindo também a idoneidade e independência do sistema SWIFT para transferências internacionais. Nestas estratégias de “decoupling” financeiro, a operacionalização do Euro digital gerido pelo banco central será um instrumento essencial para efetivar essa autonomização.

A outra vertente desta blocalização financeira é a conversão das poupanças de um bloco em investimentos nesse bloco e não em outros blocos. Hoje em dia, as poupanças do bloco europeu estão em grande medida a serem canalizadas para ativos e investimentos do bloco americano, o que no atual contexto geoestratégico é um problema grave para a Europa. Nesse sentido surge a discussão atual de incentivar fiscalmente as poupanças dos europeus, em particular as poupanças para a reforma, que têm um horizontal temporal longo adequado aos investimentos estratégicos que a Europa tem que fazer em defesa, segurança e competitividade. Essa discussão já vem tarde e é fundamental grande arrojo nas propostas de contas-poupança reforma europeias com benefícios fiscais atrativos para os cidadãos europeus deixarem o seu dinheiro em casa e não em blocos adversários. Adeus à globalização. Estamos a entrar na era da blocalização.


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