“Cretinos digitais”: proibir uso de IA não resolve

Nenhum professor quer formar “cretinos digitais”, tal como nenhum estudante ambiciona sê-lo. A solução não está em fingir que a tecnologia não existe, mas em integrá-la de forma crítica e exigente.

O manifesto de académicos que pede a proibição da inteligência artificial nas universidades, invocando o risco de transformar alunos em “cretinos digitais”, parte de uma inquietação legítima. Porém, chega a uma conclusão errada. A preocupação com a perda de autonomia intelectual, de capacidade crítica e de pensamento próprio é real e deve ser levada a sério. No entanto, e é importante sublinhar isto várias vezes, acreditar que estes problemas se resolvem proibindo uma tecnologia é não só ingénuo como contraproducente.

A inteligência artificial não é um instrumento circunscrito ao espaço universitário. Ela está já integrada na vida quotidiana, no trabalho, na administração pública, na criação cultural, nas empresas e, inevitavelmente, no estudo feito em casa ou em qualquer outro lugar. Proibi-la dentro das universidades não impede o seu uso; apenas empurra esse uso para fora do espaço académico, onde deixa de ser discutido, enquadrado e criticado. A universidade, que devia ser o lugar privilegiado para pensar a tecnologia, acabaria por abdicar desse papel.

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A ideia de que a IA “embrutece” os estudantes ignora um ponto essencial: nenhuma ferramenta, por si só, substitui o pensamento. O que pode acontecer, e que de resto já acontecia antes da IA, é um ensino excessivamente baseado na repetição, na memorização e em avaliações previsíveis e isto já não “produzia” pessoas capazes de autonomia e de capacidade crítica e de decisão. A IA apenas torna mais visível um problema pedagógico pré-existente. Proibir a ferramenta não resolve a fragilidade do modelo de ensino que lhe está subjacente e que, se fizermos uma análise aprofundada, concluiremos que já vinha errado de há uns anos.

Se o objetivo é evitar a formação de “cretinos digitais”, então a resposta tem de passar por exigir mais, não menos. Mais pensamento crítico, mais raciocínio abstrato, mais capacidade de formular perguntas relevantes e de avaliar respostas: inclusive respostas geradas por sistemas de IA. Isto implica mudanças profundas nos métodos de ensino e de avaliação: menos trabalhos meramente reprodutivos, mais projetos analíticos; menos testes padronizados, mais discussões, apresentações orais e exercícios de reflexão. Implica também ser mentor dos estudantes na forma como compreendem como funcionam estas tecnologias, quais são os seus limites, enviesamentos e impactos sociais. 

Este caminho não é fácil nem confortável. Pelo contrário, responsabiliza muito mais a função do professor. Exige maior envolvimento pedagógico, maior acompanhamento dos alunos, mais criatividade e mais trabalho. Mas é precisamente esta exigência que sempre esteve no centro da missão universitária. Nenhum professor quer formar “cretinos digitais”, tal como nenhum estudante ambiciona sê-lo. A solução não está em fingir que a tecnologia não existe, mas em integrá-la de forma crítica e exigente. 

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A universidade nunca foi um espaço de congelamento do mundo, mas um lugar de preparação para ele. Ao longo da história, novas tecnologias — do livro impresso à calculadora, do poder da computação à internet — suscitaram receios semelhantes. O que distinguiu as instituições que sobreviveram e prosperaram foi a capacidade de adaptação sem abdicar dos seus valores centrais. A inteligência artificial não muda este desafio fundamental.

Não se pode, portanto, parar o imparável por decreto. O que se pode fazer, leia-se deve fazer, é trabalhar muito mais para formar, com e apesar da tecnologia, pessoas tão capazes, críticas e responsáveis como aquelas que a universidade sempre ambicionou formar. Isto dá mais trabalho do que proibir, mas é também muitíssimo mais eficaz. 

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